TÁ MÍLE FÁILTE ROIMH - YN FIL O WEILHAU CROESO - ARE A THOUSAND TIMES WELCOME - SEJAM MIL VEZES BEM VINDOS

sábado, 20 de junho de 2009

OS DRUIDAS NOS TEMPOS DOS CELTAS


Transcrevo aqui, apenas um pequeno trecho extraído dentre os muitos encontrados na página de Claudio Crow, que é uma pessoa séria, um estudioso dedicado, que explana o tema com maestria e conhecimento profundo, infinitamente mais qualificada do que eu, para desenvolver esse assunto. É impessindível que, todos aqueles que se interessem por druidas e druidismo, façam uma visita a sua página na internet.



OS DRUIDAS NOS TEMPOS DOS CELTAS
Entre os celtas - o mais importante povo da Europa pré-clássica -, os druidas eram conhecidos como grandes sacerdotes e filósofos, e os historiadores gregos e romanos descrevem seus rituais e a importância atribuída a eles pelas tribos celtas.As funções dos druidas, porém, ultrapassavam em muito as de um mero sacerdote: conhecedores dos mistérios da natureza, estudavam as propriedades mágicas e curativas de plantas, ervas e árvores. Eram também os responsáveis pela preservação da cultura, pois eram os guardiões da história e das lendas da tribo, eternizando os feitos dos reis e rainhas em versos de rara beleza. Poetas por excelência, cantavam seus conhecimentos em poemas que deviam ser memorizados, e também atuavam como legisladores nas disputas pessoais e inter-tribais. Por fim, eram também conselheiros dos reis e rainhas celtas, em muitas vezes exercendo sobre eles a autoridade que advém não do poder, mas do respeito. Por tudo isso, podemos dizer que os druidas eram, como bem diz o Dr. Simon James, “o pilar ao redor do qual toda a sociedade celta se estruturava”.

Segundo os textos dos escritores gregos e romanos que viveram na mesma época dos druidas, essa multiplicidade de funções originava três categorias distintas: os Bardos, os Uates e os Druidas propriamente ditos. Essas categorias não formam hierarquias nem são independentes uma das outras: ao contrário, elas se complementam para formar o todo do druidismo, assim simplificadas:
Os Bardos são os poetas e contadores de histórias, responsáveis pela preservação e transmissão da identidade cultural da tribo, através das lendas e mitos, das canções e sagas, das odes e linhagens que relatam as origens, os feitos e conquistas da tribo.Os Uates (também chamados de Ovates) são os adivinhos e curandeiros – aqueles que conhecem as propriedades das ervas, a magia das árvores e, através desse conhecimento, promovem a cura e apontam para as tendências do futuro.Os Druidas são os conselheiros dos reis, sacerdotes que oficiam os ritos sagrados, juristas e legisladores.
Essas três categorias dos druidas da Antigüidade são encontradas nos textos medievais irlandeses – a Irlanda é a principal fonte de conhecimento druídico – e ainda é adotada por diversas ordens e grupos druídicos modernos Para os druidas de ontem e de hoje, o universo é todo feito de energia – e energia é, no fim das contas, a melhor definição para a Vida, para a alma. Logo, tudo no universo tem alma, merecendo assim ser respeitado e compreendido. Se tudo tem alma, tudo é vivo. Se tudo é vivo, tudo é sagrado.
A espiritualidade celta é rica em exemplos de árvores vivas, animais que se comunicam com humanos, rios que na verdade são o corpo de uma deusa, assim como bosques são o corpo de diversos deuses. Quando se adota uma visão dessas, fica difícil poluir um rio - afinal, seria o mesmo que matar uma deusa! Quanta devastação teria sido evitada se os princípios do druidismo ainda estivessem arraigados em nossas práticas...
UMA ESPIRITUALIDADE VERDE
Uma das questões fundamentais de nossos tempos é a necessidade de reestruturar os valores e formas de agir e pensar de nossa sociedade com relação ao ambiente em que vivemos. O resgate de uma percepção como a druídica, segundo a qual toda a paisagem – rios, lagos, florestas, animais, bosques, humanos – é sagrada é um dos pontos-chave para o futuro de nosso planeta: o geólogo e filósofo norte-americano Thomas Berry menciona a necessidade de se desenvolver uma “Eco-Espiritualidade”, ou “Espiritualidade Verde”, que devolva ao ser humano a percepção da sacralidade da vida. O druidismo se encaixa perfeitamente nas teorias do Prof. Berry.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

SOBRE DRUÍDAS E DRUIDISMO, EU RECOMENDO...

... ESSE SABE TUDO

Claudio Quintino (Crow)
Perfil
Nascido em São Paulo em 1969, Claudio Quintino (Crow) já na adolescência viu-se atraído pela mitologia e espiritualidade Celta.
Em 1992 apresentou sua primeira palestra sobre os elementos originalmente celtas encontrados na Wicca e a partir de então tornou-se uma referência nos círculos neo-pagãos brasileiros.
Escritor, autor de "O LIVRO DA MITOLOGIA CELTA" (2002) e "A Religião da Grande Deusa" (2000), Claudio Quintino (Crow) é um dos maiores especialistas em Espiritualidade Celta no Brasil, tendo seu trabalho reconhecido academicamente no Brasil e também no exterior.
Em suas visitas às terras celtas da Inglaterra e da Irlanda (1996 e 1999), conheceu de perto os lugares sagrados dos celtas. Nesse período, travou contato com importantes nomes do druidismo, como John Matthews - autor de dezenas de livros sobre espiritualidade celta - e Emma Restall Orr - escritora e líder da The Druid Network, maior organização druídica internacional. Graças à amizade que com eles desenvolveu, possibilitou suas visitas ao Brasil - primeiro Matthews, em 2001, e depois Emma, em 2002, possibilitando a difusão responsável do druidismo e da espiritualidade celta no Brasil. Atualmente é um dos principais nomes na divulgação do druidismo no Brasil, através de palestras e cursos (para saber mais sobre os cursos, clique aqui).
Seu vasto conhecimento e sua sensibilidade levaram Emma a escolhê-lo como representante da The Druid Network no Brasil, e hoje Claudio coordena as páginas em português no site da The Druid Network.
No Universo Acadêmico:
Apesar de não pertencer à Academia, o profundo conhecimento de Claudio sobre a cultura celta é reconhecido através de constantes convites para apresentar palestras em importantes universidades do Brasil, tendo apresentado seu trabalho em eventos marcantes da área, como:
"I Simpósio de Cultura Celta e Germânica no Brasil" (Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, 2004);
"I Simpósio de Estudos Irlandeses na América do Sul" (Universidade de São Paulo - USP, 2006);
"Semana de Educação de 2006 - Pluralidade e Transversalidade do Conhecimento" (Centro Universitário Nove de Julho - UNINOVE, 2006), entre outros.
É convidado com freqüência para apresentar cursos e palestras na Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa e no Conselho Britânico no Brasil.
Perfil atualizado em: 01/05/2007
Websites:
http://www.claudiocrow.com.br/
http://www.heramagica.com.br/

Trabalhos publicados
O Livro da Mitologia Celta (Hi-Brasil Editora, São Paulo, 2002)
A Religião da grande Deusa (Gaia Editora, São Paulo, 2000)
Aradia: Evangelho das Bruxas (tradução para o português e comentários) (Madras Editora, São Paulo, 2000)

Entrevista
Entrevistadora: Emma Restall OrrData da entrevista: 6/6/2005
- Obrigado por aceitar a entrevista Claudio!
- É sempre um prazer e honra!
Aqui na Inglaterra e na Irlanda, muitos crêem que o druidismo se espalhou a partir daqui para as comunidades anglófonas na Australásia, América do Norte e África do Sul, levado pelos imigrantes. Contudo, no Brasil existe uma saudável comunidade druídica: pode nos dizer algo a respeito?
- O Brasil, embora originalmente uma colônia portuguesa, recebeu várias ondas de imigrantes de várias partes do globo. Como resultado, criamos o que costumamos chamar de caldeirão cultural, onde ingredientes dessas novas culturas são fervidos e misturados. Isso por si só faz do Brasil um pais muito tolerante, onde muitas espiritualidades diferentes convivem lado a lado harmoniosamente. Portanto, não foi difícil para o druidismo encontrar seguidores aqui.
Devo ressaltar, no entanto, que o druidismo não foi trazido por imigrantes - ao menos não por imigrantes "físicos"! Muitos membros da comunidade druídica aqui possuem origens diferentes mas viram-se atraídos pelo druidismo e suas crenças , independentemente de linhagem sangüínea. É a conexão mágica com a paisagem e com os ancestrais, tão importantes ao druidismo, que atrai as pessoas. Atualmente a comunidade druídica brasileira vem crescendo bastante, muitos livros têm sido publicados abordando o tema e alguns grupos conduzem rituais sazonais, públicos ou privados. O Druidismo está realmente florescendo.
- Quem ou o que o inspirou em sua exploração pessoal do druidismo?
- Eu sempre senti uma atração absolutamente inexplicável pela Irlanda e tudo o que fosse celta ... Uma coisa levou a outra, creio eu. Tive a oportunidade de visitar a Irlanda duas vezes e essa foi de fato uma experiência mágica - especialmente na primeira vez, em 1996, quando viajei por toda a Irlanda, bem ao estilo mochileiro... Claro que até então eu já tinha lido muito sobre cultura e espiritualidade celta, já trabalhava com isso tudo no Brasiltudo mais. Mais a principal inspiração veio logo depois de meu retorno, quando li um livro de uma autora inglesa que assina com um pseudônimo felino, se você entende o que eu quero dizer! Seu livro "Ritual" foi um divisor de águas, pois fez com que todos os meus trabalhos e estudos anteriores se unificassem.
Ahem, acho que esse é um de meus livros! (risos)
- Mas vamos em frente! Como instrutor de druidismo no Brasil, qual elemento do druidismo você considera como crucial?
- Costumo dizer que o druidismo está sendo construído sobre alguns pilares cruciais: a conexão com a paisagem e seus ritmos, a compreensão de nossas heranças pessoais e coletivas e a busca pela inspiração para viver a vida plenamente. Essas são a base de tudo o que eu faço por aqui - palestras, cursos, celebrações públicas e privadas. Pelo meu ponto de vista, a partir desses pontos qualquer pessoa pode entender e vivenciar o druidismo, seja onde for.
- Você pode nos contar um pouco a respeito dos livros que têm escrito e o que vem por aí? Você já escreveu algum livro em inglês ou eles estão todos no belo português do Brasil?
- Meu primeiro livro foi publicado em 2000 e se chama "A religião da grande deusa". Eu não gosto muito desse titulo por que não exprime completamente o seu conteúdo, mas ele foi um pedido da editora "por questões de marketing" ... O título original seria "Raízes e Sementes", uma tentativa de mostrar às pessoas as raízes da espiritualidade neo-pagã e a semente que carregam aqueles que a seguem. À época, a editora argumentou que esse título poderia ser facilmente confundido com um livre de jardinagem! (risos) Ao que eu respondi que, de certa forma, era de fato um livro de jardinagem, para que aqueles que o leiam possam florescer... Títulos à parte, tenho muito orgulho do livro, especialmente por que foi minha primeira empreitada como escritor.
Meu segundo livro, chamado "O Livro da Mitologia Celta" é um trabalho mais conciso e maduro. Ele começa com uma introdução sobre quem foram os celtas e como era sua espiritualidade - o druidismo. Seus treze capítulos são dedicados a deidades celtas, de Brighid a Ceridwen, do Dagda a Merlin. Meu objetivo ao escrevê-lo não foi apenas abordar a espiritualidade celta e seus deuses e deusas, mas também fazer o leitor entender que todos aqueles maravilhosos heróis, rainhas e guerreiros ainda vivem dentro de nós.
- Na internet obviamente não podemos ouvir esse tipo de coisa, mas eu me lembro de nosso primeiro encontro, quando fiquei totalmente encantada com seu sotaque: uma bela mistura de "brasileiro" e irlandês. O que na alma da Irlanda atraiu seu coração?
- Essa é uma pergunta que venho tentando responder nos últimos dez anos ou mais, sempre em vão! Quando fui à Irlanda pela primeira vez, não sabia exatamente o que estava procurando, ou ao menos se estava procurando alguma coisa. Mas depois de algum tempo por lá, entendi que o que eu estava procurando era algo ao mesmo tempo familiar e desconhecido, velho e novo. Seja o que for, eu acabei encontrando algo, e esse ‘algo' despertou minha alma. A partir de então, entendi que a paisagem - todas as paisagens - são sagradas, mas quando exploramos nossas paisagens internas e lhes damos vida, então - e só então - compartilhamos dessa sacralidade. Esse é, de longe, o souvenir mais precioso que eu trouxe da Irlanda e o que eu estimarei para sempre.
- E sobre Hy Brasil? Muitos nem imaginam que há um mito celta por trás do nome Brasil. Qual é sua visão sobre esse lugar mágico e sua importância como fonte de inspiração para você?
- A mística ilha de Hy Brasil era um forte elemento no imaginário europeu no final da Idade Média. Ela pode ser encontrada nos mapas dos mais renomados cartógrafos da época, como Angelo Dalorto. Para os que não estão familiarizados com as lendas celtas, pode parecer estranho que um mito celta da Irlanda possa ter se tornado popular em toda a Europa, mas não nos esqueçamos que a mais importante lenda do velho mundo também é celta em sua origem - A Saga do Rei Arthur e a busca do Graal têm profundas raízes nos mitos ancestrais galeses e irlandeses.
Em alguns manuscritos, Hí-Breasil (a "Ilha dos Abençoados") podia ser alcançada por um navegante irlandês que cruzasse o Atlântico rumo ao oeste, por vezes ao sudoeste. É exatamente isso que é preciso fazer para se chegar à América. Hí-Brasil é descrita como uma terra onde não há inverno, onde não há árvore que não de fruto e não há arbusto que não de flor. Para quem
conhece o Brasil, essa descrição soa perturbadoramente familiar... até onde vejo, parece natural que o mito tenha se originado depois que navegantes celtas partiram das ilhas britânicas e chegaram a estas praias. Com o desenvolvimento desse mito, ele - bem como muitos outros mitos celtas - foram transmitidos a outras nações européias e, quando os navegantes portugueses alcançaram essas terras, deram-lhe o nome do paraíso sagrado celta. Como eu costumo brincar por aqui, os druidas da Grã-Bretanha desejam, quando morrerem, ir para Hí-Brasil, mas nós já moramos aqui!
- O ogham é um belo e poderoso aspecto da tradição irlandesa, usado por muitos na Grã-Bretanha. Há algumas das árvores do ogham no Brasil? Eu adoraria que você ou qualquer outra pessoa desenvolvesse um ogham brasileiro usando árvores nativas. Adoro a idéia de um ogham da floresta tropical.
- O Brasil é um pais muito vasto e há climas diferentes aqui, do semi-árido ao temperado. No sul, onde o tempo é frio, algumas árvores do ogham podem ser encontradas, tanto nativas quanto trazidas por imigrantes europeus, especialmente alemães e italianos. Mas a floresta tropical é tão rica em biodiversidade que teríamos que nos empenhar em um grande estudo para estabelecer correspondências que funcionem. Sei de algumas pessoas que têm tentado, com vários níveis de sucesso.
Mas a mais gritante coincidência é a maneira como alguns dos Primeiros Povos do Brasil chamam seus sacerdotes: "caraí" é uma palavra em guarani que significa "aquele que conhece as canções das árvores". Muito semelhante às origens da palavra druida: "aquele que têm o conhecimento das árvores". Impressionante, não?
- Há outros aspectos da tradição druídica norte-européia que você adaptou? Se sim, de que forma o fez para que essa prática seja relevante para o hemisfério sul e sua própria cultura?
- Como já dito, nós buscamos uma conexão com a terra e, dessa forma, todas as práticas druídicas - os festivais sazonais, por exemplo - são adaptadas à nossa realidade. Algumas pessoas tendem a manter a roda do ano assim como ela é praticada no hemisfério norte, enquanto outros simplesmente a invertem. Por minha experiência, posso dizer que ambas as formas funcionam - se você sabe o que está fazendo e as razões para tal - não há só um modo correto, nenhum "jeito único" para se fazer as coisas.
Contudo, é necessário um certo esforço para fazer as coisas funcionarem: é preciso conhecer a origem dos festivais, seus significados, sua evolução através dos tempos e como isso pode gerar uma nova percepção adaptada à nossa realidade - ou à de qualquer outro lugar.
Eu normalmente digo que o druidismo é uma religião britânica na origem, mas que deve se adaptar a novos ambientes, assim como fazemos quando nos mudamos para outro país - nos adaptando a um novo clima, uma nova linguagem, tudo.
- Nos EUA, é necessária uma constante conscientização para assegurar o respeito às tradições dos nativos americanos. No Brasil, como o druidismo interage com as tradições indígenas nativas sobreviventes?
- Quando mencionei os caraís, imagino que fica claro que tencionamos criar uma ponte entre tradições nativas - pois o druidismo é a tradição nativa britânica. Há um grupo muito ativo aqui chamado Nemeton Tabebuya - o nome combina a palavra gaulesa Nemeton, ‘bosque sagrado', e Tabebuya, o nome guarani para uma árvore nacional popularmente conhecida como ipê! Marcos Reis, um dos membros do Nemeton Tabebuya, é muito ligado à espiritualidade e aos mitos nativos, e nos oferece uma sólida ponte para nos conectarmos a eles.
- O quanto o ambientalismo e a destruição das paisagens virgens e florestas tropicais são parte de um diálogo com as culturas nativas? Você pode falar de seu próprio trabalho na área ambiental? O que outros druidas podem fazer para ajudar, no Brasil e em outras partes do mundo?
- Além de mostrar as pessoas em cursos e palestras o quão sérios são os danos que temos causado enquanto espécie, alguns membros estão profundamente envolvidos nas causas ambientalistas - oferecemos ajuda para muitas instituições que cuidam de animais silvestres ou cães e gatos abandonados através da arrecadação de fundos e da doação de materiais a essas instituições. Não podemos viver um druidismo só de rituais: temos que participar. Normalmente eu menciono a letra de uma das minhas bandas inglesas de pop preferidas: "Nós somos os motoristas e não passageiros na vida". Então, mãos no volante e façamos a diferença!
- Pelo que sei, há evidências arqueológicas de culturas ainda mais antigas no Brasil, incluindo as dos círculos de pedra. Você pode falar um pouco sobre as mais antigas tradições do Brasil?
- Para mim, a mais intrigante cultura destas terras é uma muito antiga, que desapareceu séculos antes da chegada da cultura tupi-guarani. Ela floresceu no norte do Brasil, mais precisamente na Ilha do Marajó. Sua cerâmica era ricamente decorada com motivos espirais e eles eram muito bons na confecção de jóias ornadas com padrões zoomórficos - para aqueles acostumados com a arte celta, isso soa familiar... Mas não estou afirmando nada... Fora isso, há afirmações discutíveis de que viajantes fenícios e vikings possam ter alcançado estas terras.
Uma coisa, contudo, é certa: pesquisas sérias comprovam que humanos se estabeleceram aqui antes do que normalmente se crê - ou nos impõem os antropólogos e arqueólogos americanos. E nós como druidas, temos o dever de honrar sua presença como os Primeiros Povos a trilhar estes caminhos, muito antes de nossa chegada.
- O que você espera do druidismo no Brasil para o futuro?
- Meu principal objetivo como alguém que trabalha com o druidismo não é promovê-lo ou gerar um grande número de praticantes; meu objetivo pessoal é pelos IDEAIS do Druidismo - aprender com o passado para criar um futuro melhor, ver o mundo como um Sistema Vivo e Sagrado e sendo parte dele por inteiro - para que esses ideais possam ser compreendidos e adotados pelo maior número possível de pessoas - independentemente da palavra que usem para denominá-lo.
Assim - e somente assim - nós poderemos aspirar por algo melhor não só para o Brasil como mas toda a comunidade da Terra.
- Claudio, agradeço pelo seu tempo e por compartilhar a visão da bela paisagem de seu lar. Que suas cançõess possam nos acordar a todos para cuidar com mais responsabilidade desse planeta sagrado. Minhas bênçãos!

OS DRUÍDAS

Os druidas desempenharam um papel primordial em todas as sociedades celtas quer aconselhando Reis, ensinando as ciências, ou dominando a medicina e a astronomia.
Era também o sacerdote, o Juiz e a memória do povo. Ele é representado de túnica branca, de foice de ouro na mão, cortando o visco, mas não deixou nenhum texto escrito para testemunhar a sua sabedoria e os seus conhecimentos.

Sem dúvida, os druidas eram uma comunidade de sábios e deixam poucos vestígios materiais de sua existência.
E para reconstruir a história dos Druidas e encontrar a sua mensagem, apenas dispomos, infelizmente, dos testemunhos de autores ao serviço do império romano e de histórias compiladas pelos monges Irlandeses, Bretões e Gauleses da Idade Média; documentos tantas vezes suspeitos, mas inúmeros e vindos de horizontes diferentes, permitem verificações, e por vezes, algumas das suas informações são confirmadas pelas descobertas arqueológicas.
Deste modo, os historiadores e os arqueólogos, reconstituem a pouco e pouco a sua herança perdida.
A sabedoria dos Druidas soube tornar os Celtas despreocupados, livres e alegres.
O seu destino pessoal numa batalha deixava-os indiferentes.
Nada se perfilava no horizonte da sua passagem pela Terra.
Uma outra vida feliz, sem inferno nem purgatório, os esperava no Outro Mundo.





Sabe-se pelos relatos dos Celtas insulares que este
Outro Mundo, espécie de universo paralelo, "o Sid", podia simbolicamente situar-se numa ilha do oceano, no extremo ocidental; ali, onde desaparece o Sol ao anoitecer, estava a Ilha; ou ainda ser imaginada no norte do mundo como a ilha de Avalon.
Todos os anos, em 1º de Novembro, a festa de Samhain, que marcava o início do ano celta, o tempo e o espaço deixavam de existir e os dois Mundos comunicavam-se.
As elevações neolíticas, as áreas cobertas, os túmulos, os dólmens, com corredores, serviam de ponto de contacto privilegiados com o mundo dos desaparecidos: prova de que os Celtas e os Druidas não tinham a menor dúvida sobre a antiguidade e a função funerária destes monumentos.

"Muito sábios", mas também "Homens do Bosque", “Homens da Árvore", "Homens do Carvalho", sem dúvida foram os Druidas. Todos os testemunhos concordam neste aspecto: poetas, geógrafos, historiadores associaram os Druidas às florestas.
Por este motivo a conquista da Gália se duplicou numa guerra contra as árvores; e César "foi o primeiro a ousar pegar num machado, brandi-lo e rachar com ferro um Carvalho perdido nas nuvens", refere Lucano.
A desarborização intensiva da Gália pelos romanos contribuiu tão eficazmente para o desaparecimento dos Druidas e Celtas.
Quando S. Patrício, em meados do século V, veio especialmente a Glastonbury com o intuito de cristianizar definitivamente o lugar Celta sagrado, começou por mandar abater com machado e alvião todas as árvores que cobriam a célebre colina do Tor.
Lutar contra as árvores era ainda nesta época uma forma de combater o Druidismo e a Cultura Celta.
Nas clareiras, no coração das profundas florestas, protegidas pela penumbra das criptas vegetais, os Druidas transmitiam pacientemente aos seus discípulos a sua sabedoria imemorial: estes afirmavam conhecer a grandeza e a forma da Terra e do mundo, os movimentos do Céu e dos astros, bem como a vontade dos Deuses.
E durante muito tempo, seja numa gruta, seja nos pequenos vales arborizados afastados, ensinavam ao seu povo uma doutrina secreta.
Na sua célebre descrição da apanha do visco pelos Druidas, Plínio, o Velho afirma que a cerimônia se realizava ao sexto dia da Lua, "que assinala entre eles o começo dos meses, dos anos e dos séculos que duraram 30 anos”.
Os Brâmanes chamavam ao sexto dia da Lua Mahatithi, o Grande Dia. Os Druidas, seus homólogos, consideravam este mesmo dia como particularmente sagrado e dotado de uma força considerável.
A revolução sideral da Lua é de 27 dias, 7h e 43 minutos. É o tempo que o astro leva a voltar a uma mesma posição no céu em relação às estrelas.
Um século de 30 anos dos Druidas contém 401 meses de revolução sideral. É por isso que, por exemplo, nos romances da Távola Redonda, inspirados na tradição Celta, os Cavaleiros Guardiões do Graal são 400, número a que se vem juntar a figura do Rei.
A Lua e o planeta Saturno têm um parentesco curioso: no dia, a Lua decorre sobre a elíptica a mesma distância que Saturno no ano.
Sem nos perdermos em pormenores, digamos que 30 dias da Lua equivalem a 30 anos de Saturno.
De acordo com um texto de Plutarco, "de facie in orbe lunae", foi possível deduzir que o século de 30 anos dos Druidas começava quando o planeta Saturno, Nyctouros, entrava no ciclo do touro, ou seja, quando todos os 30 anos, nesta época, Saturno e a Lua no seu sexto dia se viam em conjunção com a pequena constelação das Plêiades, a noite da festa de Samhain.
Mas se os séculos de 30 anos eram calculados em função do ciclo de Saturno e da revolução sideral da Lua, o calendário de todos os dias, como o encontrado em Coligny, em contrapartida, baseava-se na revolução sinódica, quer dizer, nos intervalos de tempo que separa duas fases idênticas do astro, ou seja, 29 dias 12h0 e 44minutos.
Um período de 5 anos chamava-se LUSTRE. Um ciclo druídico completo tinha 6 LUSTRES ou 30 anos.
Uma era druídica tinha 630 anos ou 126 lustres.
A diferença entre revolução sideral e a revolução sinódica deve-se ao movimento da Terra.
Existem 50 meses de revolução sinódica da Lua em quatro anos, e 150 em 12 anos.
O número 50 e 150 (ou três vezes 50) surgem constantemente nas narrativas da cultura Celta, em particular na Tradição Irlandesa.
Com os romances da Távola Redonda, é a corte do Rei Artur que recorda este sistema; com efeito, segundo os poetas, os cavaleiros reúnem-se aí quer em número 12 quer de 50 ou ainda de 150.
Assim, a corte do mundo sensível do Rei Artur opõe-se ao reino espiritual do Graal.
Plutarco, no texto já citado, conta que os habitantes das ilhas dispersas em redor da Grã-Bretanha, afirmam que Saturno é mantido prisioneiro pelo seu filho Júpiter na ilha nórdica de Ogígia.
O planeta Júpiter percorre a elíptica em 12 anos, ou seja, 150 meses de revolução sinódica da Lua. A história Celta referida por Plutarco desvenda talvez apenas uma oposição entre dois modos de contar tempo.
Os Druidas não ensinaram uma religião, mas uma metafísica da Natureza. A sua Confraria reuniu a aristocracia do saber e da filosofia.
Guias espirituais eram também cientistas, físicos, astrônomos...
Um dos factos mais interessantes na cultura celta era a afinidade com a natureza, os celtas realizavam a contagem dos dias através do nascer e do pôr do sol.
Levando-os a contarem as noites e não os dias, criando assim uma ligação perfeita entre o céu e a terra, entre o sol e a lua.
Assim o dia começa quando o sol se põe; ao contrário do que “vivenciamos” atualmente.
O dia se inicia com a Lua, com a Deusa mostrando que é hora de trabalhar o mistério, o oculto, o morrer.
Ao amanhecer, o Deus vem fecundar e nutrir a Deusa, para que mais um dia possa ser gerado. Aceitar, entender esta prática sem fazer qualquer ligação com feitiçarias, para alguns é muito difícil, mas, para os Sacerdotes dos Celtas – Os Druidas – e para a cultura celta em geral, estes ensinamentos são de imensa profundidade.
Os druidas deram a cada um dos meses do ano o nome de uma das suas árvores sagradas; assim como fizeram com o alfabeto ogham.
Cada letra deste alfabeto era representada por uma árvore, que, por sua vez, representava um período do ano.
A este período demos o nome de mês; isto para fazermos um paralelo entre as duas culturas.
O Horóscopo Celta Lunar não foi desenvolvido baseado nos movimentos da lua (como alguns devem estar imaginando), mas sim nos períodos do ano em que suas árvores sagradas tinham uma maior predominância de suas características e propriedades.

domingo, 14 de junho de 2009

A RELIGIÃO DOS CELTAS

Enveredamos agora por um tema extenso, apaixonante, belo e cheio de magia e encantamento.
Se já é difícil falar sobre religião, mais difícil ainda se torna abordarmos um assunto que por si só já é polêmico e controverso, pois, embora atualmente muito se fale a respeito do paganismo Celta, é cada vez mais evidente que este segmento pouco teve relação real com os povos de origem celta.
Como os celtas promoveram incursões regulares às terras circunvizinhas, culminando com a expansão dos territórios por eles conquistados e povoados, é possível que essas diferentes ondas migratórias fizessem com que fossem assimilados alguns dos hábitos e caracteres culturais desses povos, entre eles, à religião.
A bem da verdade, os Celtas tinham um complexo panteão de divindades o que poderia vir a servir de esboço para a formação de um sistema religioso, só que em cada tribo havia um costume e um Deus que era devidamente cultuado sem a existência de templos ou figuras para serem adoradas.
A histórias desses Deuses era passada de forma comum, jamais escrita, sem a existência de rituais (que só vieram a surgir no século III d.C).
Mas em momento algum os Celtas constituíram um conjunto de valores de fundo religioso de forma organizada.
Sabe-se apenas que eles adoravam e reverenciavam os Deuses de acordo com o local onde se estabeleciam e a cultura por eles absolvidas ao conquistar um local por meio de guerra.
Com base nisso, percebemos que em várias tribos celtas existia uma supremacia no culto a divindades específicas, como é o caso do Deus Lugh, cujo nome foi dado a Londres e Lyon em honra a este Deus.
Por isso, quando se fala em paganismo, não podemos atribuir aos Celtas a sua prática e tão pouco a criação do mesmo, apenas podemos dizer que o paganismo Celta existe nos dias atuais porque pessoas que estudaram o panteão Celta, dos quais fazem parte uma gama de Deuses, como: Danu, Lugh, Cernunnus, Dagda, entre tantos outros – da mesma forma que existe o Panteão Grego, Egípcio, entre outros…
Os Celtas tinham literalmente centenas de divindades, alguns desconhecidos fora de uma mesma família ou tribo, enquanto outros foram popular o suficiente para ter uma sequência que cruzaram fronteiras da língua e da cultura.
Por exemplo, o deus irlandês Lugh, associados com tempestades, raios, e da cultura, é visto em uma forma similar como Lugos em Gália e Lleu no País de Gales.
Dentre os deuses celtas cujas figuras os romanos tentaram assimilar a seus próprios deuses, está a tríade fundamental que era encabeçada por Lug - identificado com o Mercúrio galo-romano -, deus-druida, mago, sábio e rei de deuses.
Junto a ele encontrava-se Dagda - Taranis para os gauleses - senhor dos elementos e das tormentas, pelo que os latinos o relacionaram com Júpiter; era com freqüência representado como Cernunnos, deus dotado de chifres de cervo, senhor dos animais.
Por último, Ogme, deus da guerra, o Marte céltico. Havia diversas outras divindades; as femininas, como Epona, a deusa-égua, tinham grande importância e em geral eram associadas a ritos de fertilidade
Padrões similares são também observados com a deusa do cavalo Epona, deusa celta continental, e que pode muito bem ser, Macha e Rhiannon para os irlandeses e galeses, respectivamente.
Não podemos encarar a religião celta como uma instituição ou mesmo como algo que coexistia com outros campos da vida das pessoas.
Não existia um momento para a pessoa trabalhar, outro para se divertir e outro para se dedicar à religião.
A religião estava em tudo isso, era ela quem norteava o comportamento e a conduta dos celtas.
O trabalho, os tempos de entretenimento, a arte, enfim, tudo estava ligado à religião.
Em todas as fontes de informação que se tem sobre a religião dos celtas (e não são poucas) devemos ter certa cautela ao aceitá-las como verdades absolutas.
Sites da Internet existem centenas tratando do assunto, cada um dizendo algo diferente. Existem outras centenas de livros (muitos deles, logo nas primeiras páginas podemos notar que não são estudos sérios).
Alguns estudiosos preocupam-se em discernir duas correntes religiosas: a céltica e a druídica. Embora muito semelhantes (levando-se em conta que a céltica é derivada da druídica) existe uma tendência a fazer certas considerações.
Acredita-se que o celtismo era mais rudimentar e mais ligado ao culto da Mãe Natureza, enquanto o druídismo apegava-se a diversas divindades ligadas à natureza.
Outros atestam o politeísmo do povo celta, e já o consideram monoteísta e todas as divindades nada mais eram que extensão de uma Deusa-Mãe.
Ainda há os que os descrevem como monoteístas, que cultuavam o deus-fogo Beal, ligado ao sol (a exemplo de Ra para os egípcios).
Os Celtas não viam os seus deuses como tendo uma forma humana até mais tarde na Idade de Ferro.
Os santuários celtas estavam situados em zonas remotas, como colinas, olivais, e lagos.
Os padrões Celticos religiosos foram regionalmente variáveis, mas alguns padrões de formas de divindade, e formas de culto destas divindades, aparecem em uma ampla faixa geográfica e temporal.
Os Celtas adoravam deuses e deusas.
Em geral, os deuses eram divindades de competências específicas, tais como os muitos Lugh e Dagda-qualificados, e associados com características naturais, muito especialmente rios, como Boann, deusa do rio Boyne.
A assimilação dessas figuras às romanas foi puramente nominal, pois na religião celta os deuses não eram antropomórficos nem se atinham a funções determinadas, mas antes a esferas nem sempre precisas.
Assim, é provável que as três divindades supremas constituíssem manifestações diferentes de um só deus.
A essência da concepção céltica do mundo resultava de uma consciência da contínua inter-relação entre o mundo físico e o espiritual, e daí a concepção de uma realidade fluida e cambiante, que marcou todas as suas expressões artísticas. Nesse sentido, sua crença na transmigração das almas não se radicava tanto na idéia de uma sucessão temporal como, principalmente, na da possibilidade de assumir ao mesmo tempo diversas aparências:
-"Sou o vento no mar, sou um salmão na água cristalina, sou um lago na planície, sou a lança vitoriosa que combate, sou um homem que prepara fogo para uma cabeça."
Essa concepção do mundo como perpétua metamorfose explica a forma como a mitologia irlandesa representa o mar.
Este é encarnado pelo deus Mannanan, força mágica e misteriosa em cujos confins encontravam-se as terras férteis e verdejantes do mundo futuro: o Tir na nog irlandês, a "terra da juventude", ou o Ynys Afallach galês, o "país das maçãs", que daria origem à ilha de Avalon das lendas do rei Artur.
Todos esses nomes revelam que a imortalidade para os celtas não passava de um prolongamento dos prazeres deste mundo, que por sua vez era bafejado pelo sobrenatural.
Algumas árvores tinham importante significância na religião celta, como era o caso do carvalho (ligada à sabedoria), o freixo (ligado à proteção), o salgueiro (ligado às divindades da água), e etc. Alguns animais também tinham sua simbologia - o touro, por exemplo, estava representava a
fertilidade e a serpente ligada à sabedoria.
Os celtas acreditavam na existência do “Outro Mundo”, aonde residem os antepassados e demais espíritos. Acreditavam também que determinadas pessoas eram dotadas do poder de comunicação com este mundo. Acredita-se que o fato de os guerreiros celtas serem bravos e destemidos venha da certeza que eles tinham de que a morte nada mais é que uma passagem.
Como eram os rituais celtas para honrar seus deuses isto é difícil precisar.
Sabe-se que as cerimônias eram realizadas em lugares abertos, em campos e florestas.
As florestas de carvalho eram de predileção dos druidas, pelo fato do carvalho ser considerado uma árvore sagrada.




sexta-feira, 12 de junho de 2009

COSTUMES E VESTIMENTA CELTA

A vívida descrição, do punho do Políbio, da batalha de Télamon, travada entre os Romanos e os invasores gauleses em 225 a. C., contém o mais antigo relato do vestuário e da aparência dos Celtas.
É de supor ter-se apoiado em relatos desta batalha em primeira mão, e podemos aceitar o seu testemunho com confiança.
Descreve como os Ínsubres e os Bóios, tribos já estabelecidas no Norte de Itália, usavam calças (latim bracae, donde o inglês breeches, calções) e as capas ligeiras.
Os Gaesatae, combatentes trazidos de além-Alpes, exibiam-se nus à frente da primeira linha de batalha, tendo por únicos adornos um torques no pescoço e pulseiras nos pulsos, de ouro.
Tanto homens como as mulheres prendiam os seus cabelos com grossos alfinetes, penteavam-se com joias de ouro ou prata ricamente elaboradas.
Aqueles que não podiam aceder a este tipo de joias, recorriam a produtos de bronze, com incrustações de metais preciosos .
A vestimenta consistia numa saia larga, e numa camiseta em lã ou linho, ás vezes adornadas com motivos geométricos.
Esta vestimenta era coberta por uma capa negra de lã para protecção do frio e da chuva. Prendiam as sua vestimentas com cinturões de couro com apliques metálicos.
As roupas celtas eram vistosas, até demais para os austeros padrões de gregos e romanos.
Fios de cores vívidas - obtidos com os mais diferentes pigmentos - eram tecidos em padrões de listras ou xadrez, e a proverbial vaidade dos celtas era satisfeita com belíssimos adereços feitos com ouro, prata, contas, âmbar e esmalte.
Mas mais do que adereços, as jóias celtas determinavam seu status social.
Um adereço tipicamente celta é o torque - um grosso colar de ouro usado ao redor do pescoço. Quanto mais grosso o torque, mais socialmente proeminente era seu portador.
Os homens celtas davam preferência ao uso de longos bigodes, que usavam - segundo os observadores clássicos - para 'filtrar' a cerveja enquanto a bebiam.
Esse costume é retratado com clareza nas estátuas de celtas esculpidas por gregos e romanos - como a dramática imagem do "Gaulês à beira da morte" e também na própria arte celta.
Ao contrário das culturas clássicas do Mediterrâneo e suas togas, os celtas eram dados ao uso dessa 'barbárica' vestimenta: as calças.
Mantos e capas eram comuns, sempre em tons coloridos, e as mulheres usavam vestidos acinturados que realçavam suas formas graças a cintos de couro e, no caso das nobres, ouro e pedras presos aos quadris.
Cabelos longos eram costume em ambos os sexos, e muitos vestígios arqueológicos - bem como relatos textuais - indicam o constante uso de tranças e rabos-de-cavalo.
Sempre preocupados com as aparências, os celtas costumavam decorar o corpo com tatuagens e maquiagem.
Como já dito, os celtas jamais formaram uma federação ou império - em grande parte porque a base de sua organização social era a pequena tribo.
A esses grupos sub-tribais os romanos deram o nome de pagi.
Uma tribo – como a dos Parisi, por exemplo – era composta por diversos pagi agrupados, e raramente tribos diferentes se uniam em confederações, salvo nalguns momentos de crise – como as célebres alianças lideradas na Gália por Vercingetorix e na Grã-Bretanha pela rainha Boudicca na resistência aos romanos.
“As tribos eram geralmente governadas por reis ou chefes (normalmente em pares) com poderes limitados, e as decisões importantes eram tomadas por assembléias populares com todos os homens livres da tribo. Também havia um conselho com centenas de nobres proeminentes (chamado por César de ‘senado’), de onde eram escolhidos os líderes e do qual emanava o real poder”.
(Simon James)
Até o contato com os romanos, as tribos celtas da Gália não costumavam se estabelecer em aglomerados urbanos – pelo contrário, a população de uma tribo se espalhava por uma determinada área em pequenas propriedades rurais ou, quando muito, aldeotas.
A forma de construção das casas celtas costuma ser redonda nas ilhas britânicas e retangular na Gália (à dir.), e especula-se que cada uma delas costumava abrigar uma ou duas famílias aparentadas e seus dependentes.
Numa colina dominante da paisagem em questão, ergueria-se o forte que servia como abrigo coletivo em momentos de crise e também residência real.
A influência da cultura romana na Gália trouxe o conceito da urbe, a cidade, e muitas cidades das modernas França (Lyon) e Itália (Milão) começaram como vilas celtas.
Como principais meios de subsistência, os celtas cultivavam o trigo e criavam gado.
A posse de bois era uma forma de se determinar a riqueza de cada um.
Os celtas criaram o padrão xadrez para as vestimentas e o barril para transportar bebidas. Usavam calças, túnicas, mantos ou capas de lã, e estavam sempre ricamente adornados por torques de ouro, cintos ou faixas decorativas, broches e variados ornamentos corporais.
As túnicas e capas tinham decoração bordada.
As túnicas eram normalmente feitas de linho e caíam até os joelhos para os homens e até os tornozelos para as mulheres.
As capas eram feitas de lã e seu comprimento ostentava a riqueza ou posição social.
Usavam nos pés sandálias e sapatos de couro.
A aparência de seus trajes era muito colorida, principalmente púrpura, carmesim e verde.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

CARACTERES FÍSICOS DOS CELTAS



“Este capítulo tratará, principalmente, dos aspectos da vida e preocupações mundanas da sociedade celta, tal como esta parece refletir-se muito uniformemente na tradição insular local, não menos do que na arqueologia e nos textos clássicos. Mas, antes de tudo, importa considerar a aparência física dos Celtas, pois foi um assunto de freqüentes comentários por autores gregos e latinos, e que nos impõe um esclarecimento sobre o termo raça em relação com este povo.
“Afirmou-se atrás que os gregos do tempo de Heródoto conseguiam distinguir entre cós Celtas por vários traços nacionais, do mesmo modo como se distinguiam uns dos outros, ainda há muito pouco tempo, quase todos os habitantes dos países da Europa, pelas diferenças regionais de vestuário e de características físicas. Foi no período após a grande expansão Celta, que incluiu a invasão do Norte da Itália, que o tipo físico dominante entre os Celtas chamou a atenção dos autores clássicos. Políbio, escrevendo no século II a.C. e inspirando-se, provavelmente, em fontes anteriores, referiu o aspecto terrível dos guerreiros gauleses bem constituídos, mas encontram-se descrições ainda mais explícitas, um pouco mais tarde, em Estrabão, Diodoro Sículo e Plínio, entre outros.
“Os Celtas causavam impressão aos olhos mediterrânicos pela altura, brancura da pele, desenvolvimento muscular, olhos azuis e pelo cabelo loiro. Deve acentuar-se desde já que estas características eram apontadas por contraste com o físico e a pigmentação dos observadores mediterrânicos e, em todo o caso, observavam-se nos elementos mais salientes da sociedade celta, chefes e guerreiros livres, não forçosamente em toda a população. As descrições clássicas concordam perfeitamente coma s normas de beleza da aristocracia insular celta, tais como no-la enaltece a literatura irlandesa antiga, pelo que há que pôr de parte muitos falsos conceitos populares atuais sobre o que constituía o Celta típico, por exemplo, da Gales ou das Hébrides. Resta apenas a questão relativa à apreciação do tipo genérico alto e loiro.
“Diga-se de passagem que o conceito de raças puras, com elementos fixos de estrutura e pigmentação, está há muito refutado pela ciência. O termo raça não é susceptível de definição rigorosa, aplicando-se apenas a classificações de tão tremenda generalidade como negra, branca ou amarela. Não deixa, porém, de ser verdade que, entre os grupos populacionais mais bem definidos, são de esperar certos conjuntos de características físicas. O que causa impressão ao observador não especializado é a acumulação de aspectos novos (para ele), se bem que muito poucos apenas de entre eles se encontrem em todos os indivíduos observados.
“Pelo que diz respeito ao tipo físico característico dos Celtas, há a acrescentar duas outras fontes à descrição literária. Em primeiro lugar há representações das artes plásticas, tanto clássicas como locais, e em segundo lugar há material osteológico das sepulturas celtas. Esta última massa de provas, ainda relativamente pobre, deverá aumentar de valor com o aperfeiçoamento da técnica de escavação e recuperação dos túmulos, mas também depende das condições químicas do solo, que divergem de um lugar para outro, e não pouco dos vários riscos de destruição que as ameaçam, inclusive à descoberta.
“As provas anatômicas encontradas nas sepulturas reconhecidamente celtas que contêm objetos de Hallstatt ou de La Tène indicam uma mistura de indivíduos, uns de cabeça redonda outros comprida. Parece que os de cabeça redonda representavam, na generalidade, as populações há mais tempo estabelecidas da Idade do Bronze na zona norte-alpina, enquanto os de cabeça comprida, que certos motivos levam a crer formassem o elemento mais aristocrático, eram evidentemente descendentes de uma população mais da Europa Central, que se entendera para ocidente. Em geral, o material osteológico estudado até hoje indicava uma situação em tudo semelhante à de qualquer grupo étnico moderno, em que são aparentes misturas de tipos genéticos, mas em que certas características físicas são proeminentes, especialmente em relação a diferentes tipos ou elementos da população total.
“A luz que a arte representativa lança sobre este assunto é considerável, e simultaneamente consistente. Uma estilização da cabeça e da máscara humanas levadas ao extremo, pela arte nativa de La Tène, inibe-nos de fazer quaisquer deduções sobre a forma da cabeça. Em compensação certas características tiradas de outros lados, como os bigodes caídos e o cabelo solto puxado para trás, dão-nos uma certa informação direta sobre a aparência facial, tal como a idealizavam os Celtas.
“A escultura clássica dos guerreiros celtas, concebida principalmente segundo a escola de Pérgamo, que comemora a derrota dos Gálatas na Ásia Menor, confirma as descrições literárias dos corpos altos e musculosos, ágeis de membros, com as cabeças redondas ou medianas e o cabelo ondulado ou encaracolado. Também este caso ilustra bem certos aspectos deliberados da aparência pessoal, e é para estes, bem como para o estilo do vestuário e ornamentação, que vamos agora virar a nossa atenção.

Diodoro Sículo é talvez o escritor que melhor descrição geral nos deixou sobre a aparência do guerreiro celta e, ainda neste caso, repetindo, provavelmente, relatos mais antigos e diretos. Começando pelos bigodes, diz que os nobres os usavam compridos, cobrindo a própria boca, mas que à parte isso usavam a cara raspada. Isto está de acordo com o que nos mostram aos trabalhos nativos em metal e com o que pode ver-se em esculturas tão conhecidas como as do Gaulês moribundo e do Grupo de Ludovisi, do guerreiro derrotado que se suicida depois de já ter morto a mulher. Estas duas peças eram originais de Pérgamo, e portanto reproduzem os Galatae que invadiram a Ásia Menor.
“Diodoro afirma que alguns dos homens usavam barbichas, ainda neste caso guerreiros, como é de presumir, mas o seu elemento informativo mais interessante é o modo como usavam o cabelo. Descreve-nos ele como os Celtas untavam constantemente o cabelo com uma espessa loção fixadora e o puxavam todo para trás para produzir um aspecto estranho, como uma crina de cavalo. Parece só se conhecer a existência de uma peça de escultura grega que mostre este estilo peculiar de penteado: a Cabeça de Gizé, agora no Museu do Cairo, que parece ser em estilo mais antigo do que o (e diferente do) da Escola de Pérgamo. Já mencionávamos cabeças e máscaras em trabalho nativo de metal, mas este estilo e penteado parece também aparecer num pequeno número de moedas gaulesas e britânicas das últimas fases da independência.
“Não há nos textos irlandeses qualquer verdadeira descrição da aplicação da loção fixadora, mas parece ter-se verificado tal prática, ou outra muito semelhante. Há referências a cabelos compridos tão tesos que as maçãs que lhes caíssem em cima neles ficariam espetadas. Tal é a descrição, por exemplo, aplicada a Cú Chulainn, o modelo dos heróis tribais, cujo cabelo é descrito noutro ponto como de três tons, mais escuro junto à raiz e mais loiro nas pontas, com um tom intermédio no meio. Tratar-se-ia, certamente, do efeito da aplicação do fixador, cujo paralelo se vê hoje todos os dias em cabelos crescidos depois de pintados.”
(texto tirado do livro Os Celtas, do TGE Powell)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A SEXUALIDADE DAS MULHERES CELTAS

A beleza das mulheres celtas foi decantada pelos autores clássicos.
Seu ar impoente, suas vestes e adereços deveriam fazer delas uma visão sem dúvida formidável aos olhos de gregos e romanos.
Orgulhosas, elas usavam jóias em ouro, contas e pedras preciosas, e a igualdade de direitos lhes dava ainda mais força.
A sexualidade não era algo de que os celtas se envergonhassem, pelo contrário: nas palavras de Diodorus Siculus, "elas geralmente cedem sua virgindade a outros e isto não é visto como uma desgraça: pelo contrário, elas se sentem ofendidas quando seus favores são recusados".
Esse costume social retratado por um historiador grego observando os gauleses encontra eco nas lendas irlandesas da Rainha Maedbh, que afirmava "jamais ter se deitado com um homem sem que houvesse outro a esperá-la na sombra".
E quando uma nobre romana, não acostumada com a liberdade e a força do caráter das mulheres celtas questionou a integridade moral de uma delas, ouviu a acachapante resposta: "nós mulheres celtas atendemos as exigências da natureza com muito mais dignidade do que vocês, romanas: pois enquanto nós copulamos abertamente com nossos melhores homens, vocês secretamente se sujeitam aos mais vis."
O sexo não era encarado em rígidos termos moralistas, uma mulher não era "culpada" de adultério se tivesse relações sexuais extraconjugais. Mais tarde a igreja cristã combateu essas leis e muitos outros costumes célticos referentes às mulheres, sobretudo o direito ao divórcio, a herdar propriedades, portar armas e a exercer a profissão médica.
Estudar os comportamentos sexuais de uma sociedade como a celta que conhecemos por intermédio da sua literatura – essa passando infelizmente pelo filtro da cultura cristã – e pelos achados de utensílios, estelas e ogamstones, é possível "reconstruirmos" alguns de seus comportamentos e práticas sociais. Jean Markale em seu livro La femme celtique. Mythe e sociologie nos explica que a sexualidade – principalmente a feminina -, era tratada com naturalidade, pois ela é inerente a natureza humana e não podia ser reprimida o que infelizmente, a partir do século V com a chegada do bispo Patrício e do cristianismo passou a receber a conotação pecaminosa, conceito imposto pelo cristianismo.
Numa sociedade onde a mulher é senhora de seu próprio corpo – ela percebe em si os ciclos da natureza, ela dá à luz homens e mulheres e, sabe que o seu corpo é a fonte de seu prazer como a de seu companheiro.
Há um grau de liberdade muito grande entre os celtas, já que a mulher pode dispor de seus bens, pode divorciar-se e pode ou não aceitar as concubinas do marido, podendo ela também – dependendo de sua riqueza e posição social manter amantes.
A rainha mítica Maedbh, esposa do rei Ailil mantinha um amante a quem se entregava apenas para obter prazer pois, dedicava seu amor exclusivamente ao rei.
Esses comportamentos "liberados" das mulheres lhes garantiam a sua circularidade e visibilidade (LAURETIS: 1995, 56) dentro da sociedade celta. Recorro mais uma vez a Jean Markale para explicar a importância do sexo nesta sociedade, quando explica que o ato sexual é um retorno ao Paraíso, ou então, é uma pequena mostra de como pode ser o Outro Mundo, ou o Mundo das Fadas, onde não há dor, fome ou necessidades e o orgasmo, principalmente aquele atingido simultaneamente pelo homem e pela mulher, é a porta de entrada para esse paraíso (MARKALE: 1976, 330, 1, 2, 3)! Tanto os homens como mulheres celtas almejavam estar entre as fadas, pois além de estarem vivendo num estado constante de prazer, sabiam que este duraria a eternidade.
A mulher possui três funções: ela é a Transformadora, a Iniciadora e a Finalizadora.
É pelo sexo e, ainda mais pela liberdade de poder vivenciar a sua sexualidade que ela pode:
Transformar: a vida, dar à luz e prazer a si e ao seu companheiro;
Iniciar: nas artes divinatórias, nas práticas sexuais e por fim é a
Finalizadora: a que faz chegar ao prazer e a que conduz ao outro mundo.
A circularidade e visibilidade da mulher na sociedade celta eram naturais o que provavelmente chocou os cristãos e trataram impor os seus conceitos: virgindade indispensável e repressão dos desejos e instintos sexuais femininos.
A consciência do próprio corpo – o conhecimento profundo de cada parte, de cada ciclo, de cada ponto onde se pode obter prazer – era comum entre as mulheres celtas que quando sentiam desejo por um homem, lhe ofereciam prazerosamente, a "amizade de suas coxas".
Mas toda essa liberdade para amarem e viverem em plenitude a sua sexualidade advém de uma consciência e uma responsabilidade para consigo e para com os outros membros de sua comunidade,o que contrasta com a repressão vivida pelas mulheres ocidentais hoje.
E toda essa vivência é assim definida por Markale e ela resume e define a mulher celta e a sua sexualidade:
"Se a mulher ocidental moderna não é livre, Isolda, Grainné e Deirdré eram mulheres livres. A mulher celta era livre porque agia com plena consciência de suas responsabilidades. E sendo livres eram capazes de amar, pois o amor era um sentimento que escapava a todas as contrariedades e a todas as leis surgidas da razão, sendo livres podiam amar."(MARKALE: 1976 – 354).