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segunda-feira, 31 de maio de 2010

ASTERIX

Hoje, nós vamos à França para dar uma olhada em um dos maiores sucessos na história dos quadrinhos franceses, e um dos meus favoritos pessoais, Asterix.
Você já leu Asterix?
Se você é europeu, a resposta provavelmente é sim.
Desde seu humilde início em 1961, esta série de álbuns de humor em quadrinhos foi traduzida para vários idiomas e teve sucesso em muitos países – e é possivelmente a mais bem sucedida banda desenhada francesa...
E com razão. Asterix é o melhor, é sofisticado e inteligente, com enredos intrigantes e humor inteligente - tudo sem perder o seu apelo. Basicamente, é um olhar satírico no mundo, e particularmente na França (na época conhecida como Gália), nos tempos do Império Romano - não completo e historicamente exato, mas, talvez...
Vamos apenas deixar que o enredo se resuma:

Mapa que mostra a localização da aldeia gaulesa na abertura de todas as histórias em quadrinhos de Asterix

O ano é 50 antes de Cristo. A Gália está totalmente ocupada pelos romanos. Bem, não totalmente... Uma pequena aldeia dos gauleses indomáveis ainda mantém-se contra os invasores, a vida não é fácil para as guarnições dos legionários romanos que estão nos campos fortificados de Totorum, Aquarium, Laudanum e Compêndio...

A história de Asterix é a história de uma pequena aldeia gaulesa em algum lugar sem nome, na costa da Armórica (Bretanha), a única aldeia que nunca foi conquistada pelos romanos porque esta vila tem uma arma secreta, ou seja, uma poção mágica que dá força sobre-humana a quem bebê-la.
Não é muito realista, talvez? Não, mas do ponto de Asterix não há realismo. O fato de quase todos os personagens (exceto as de pessoas históricas reais, como Júlio César e Cleópatra) possuírem nomes como trocadilhos dize-nos mais do que precisamos saber.
Seja em sua aldeia no norte da Gália, último reduto não conquistado pelo Império Romano, ou em outras partes do mundo antigo, as aventuras de Asterix, Obelix e companhia começaram a serem contadas pelo ilustrador Albert Uderzo e pelo roteirista René Goscinny em 1959. Desde então, foram 34 álbuns com histórias que viraram clássicos dos quadrinhos traduzidos em 107 línguas e dialetos, que venderam mais de 325 milhões de exemplares, na conta de seus criadores. Verdade, existe trinta e quatro álbuns de Asterix (trinta e três histórias de longa-metragem e uma coleção de histórias curtas), e só porque eu realmente quero hoje falar sobre Asterix, eu vou dar um run-down completo, com comentários e minha opinião pessoal, em todos os trinta e quatro. Antes, porém, a apresentação de alguns dos personagens.
Conheça o universo de Asterix, Obelix, do druida Panoramix e sua poção mágica e de todos os loucos romanos que insistem em conquistar aquela última aldeia gaulesa.

Quem é quem em Asterix

Asterix: o personagem que dá nome ao livro é baixinho, não possui um físico avantajado, mas é valente e destemido, é o maior herói dos gauleses. Lidera as aventuras contra os romanos e outras ameaças à sua aldeia gaulesa. É esperto e inteligente e essa inteligência e astúcia são essenciais para as bem-sucedidas missões, além da poção mágica preparada pelo druida Panoramix, que ele leva sempre em um cantil em suas aventuras. Esperto e inteligente, mas leva sempre um cantil de poção mágica em suas aventuras.
O seu nome provém da palavra asterisque (asterisco).

Obelix: é o passional e fiel companheiro de Asterix, e tem duas paixões: seu cãozinho de estimação Ideiafix e um bom prato de javali. Obelix tem uma força sobre-humana, porque quando era pequeno,um bebê, caiu no caldeirão de poção mágica preparado pelo druída Panoramix e, por isso não precisa mais tomá-la para manter sua força monumental. Fiel escudeiro de Asterix, trabalha como entregador de menires. Seu lazer predileto é uma boa briga, principalmente contra os legionários romanos.
Só pensa em duas coisas: comer javali e bater nos romanos. O seu nome provém do francês
Obelisque (obelisco) e está relacionado com o seu trabalho com menires.
Panoramix: o druída Panoramix é o druida da aldeia, o grande responsável por preparar a poção mágica que dá força sobre-humana aos gauleses, pela resistência gaulesa. É ele quem guarda a fórmula ultra-secreta da poção mágica. Além disso, é um dos principais conselheiros de Asterix e de Abracurcix, o chefe da aldeia gaulesa. O seu nome provém da palavra panoramique (panorâmico).

Idéiafix ou Dogmatix: cachorrinho de Obelix, é pequeno, mas acompanha Asterix e Obelix em quase todas suas empreitadas.

O cãozinho é famoso por sua preocupação ambiental, pois sempre reclama quando árvores são derrubadas na série.

Já era um ecologista militante desde os anos 60. Defensor da natureza, não admite que árvores sejam derrubadas.

Quando isso acontece, fica tão desesperado que Obelix acaba por plantá-las de volta para acalmar o amiguinho.Nas palavras de seu criador, Idéiafix é "o primeiro ecologista do mundo canino",
Ideiafix (no original, Idéfix).
O seu nome provém do francês ideé fixe (idéia fixa).
Abraracucix ou Matasetix: o valente chefe da vila gaulesa é corajoso, colérico e respeitado tanto pelos súditos como pelos inimigos. Seu único medo é que o céu caia sobre sua cabeça. É casado com a temperamental Naftalina, que odeia viver na aldeia.
Abracurcix (no original, Abraracurcix), o seu nome provém do original francês à bras raccourcis (braço partido), em português evoca "abra um curso".

Chatotorix ou Cacofonix: o trovador, o bardo da vila se vangloria por seus talentos musicais, mas quase sempre fica excluído das comemorações devido à sua voz desafinada.
O péssimo cantor da aldeia, mas bom companheiro é considerado o bardo mais chato de toda a Gália. Irrita todos os moradores quando toca sua harpa e canta. Muitas vezes termina amarrado em alguma árvore distante de onde os outros gauleses estão.
Chatotorix ou Cacofonix, (no original, Assurancetourix, o seu nome provém do francês assurance tous risques (seguro contra todos os riscos).
Veteranix ou Decanorix: o mais idoso habitante da aldeia é um veterano de guerra. Apesar dos seus mais de 90 anos, é casado com a jovem, bela e atraente Naftalina Veteranix (no original, Agecanonix), o ancião da aldeia, também é conhecido como Geriatrix em algumas versões. O seu nome provém do francês age canonique (idade canonica).

Júlio César: o imperador romano, principal inimigo dos gauleses, não se conforma em não ter o domínio completo da Gália, e está sempre em busca de uma solução para vencer os gauleses. Tem como obsessão conquistar aquele único cantinho da Gália que não foi subjugado pelo seu exército. Vaidoso e perspicaz, César tem sempre planos mirabolantes para atingir esse objetivo. Mas, normalmente eles vão por água abaixo graças à incompetência de seus comandados e à astúcia dos gauleses.

Automatix ou Éautomatix (no original, Cétautomatix), o ferreiro que sempre critica a qualidade dos peixes vendidos por Ordenalfabetix. O seu nome provém do francês c'est automatique (é automático).

Ordenalfabetix ou Ordemalfabetix (no original, Ordralfabetix), o peixeiro que está sempre em disputa com Automatix por causa das suas críticas. O seu nome provém do francês ordre alfabetique (ordem alfabética).

Naftalina ou Boapinta, (no original, Bonemine) é a mulher de Abracurcix, sempre arrependida de ter casado com ele. O seu nome, no original (Bonemine), vem do francês bonne mine, significando "estar em forma", "estar bem".
• O bordão de Obelix é: -"Esses... [nome do povo]... são uns loucos", sendo "romanos" o povo mais frequente.
• O péssimo canto de Chatotorix (que em livros tardios enerva os deuses e leva à chuva), é geralmente impedido por Automatix.
• Automatix reclama dos peixes de Ordenalfabetix, iniciando uma briga entre toda a aldeia.
• Obelix pede para tomar a poção mágica apesar desta ter efeito permanente nele.
• Legionários reclamarem após terem sido espancados.
• A gula de Obelix.
• Um grupo de piratas (paródia de Barbe Rouge, uma história contemporânea) que ao se encontrar com Asterix e Obelix, geralmente têm o seu navio afundado (às vezes, eles até sacrificam o seu próprio barco para evitar a surra dos gauleses).
• Chatotorix ser amarrado na hora do banquete para que não possa cantar.

Uma das bases do humor são os trocadilhos, a começar pelos protagonistas, batizados com os símbolos para notas de rodapé: asterisco (*) e obelisco (†).
Para aumentar os trocadilhos, todos os povos têm terminações comuns de nomes:
os gauleses terminam em -ix e as gaulesas em -a
os romanos em -us
normandos em -af
bretões em -ax e -os
egípcios em -is
gregos em -os e -as
vikings em -sen
godos em -ic
e hispânicos nomes compostos

Asterix e Obelix encontram muitas alusões ao século XX durante as suas jornadas.
Os godos são militaristas, lembrando os alemães dos séculos XIX e XX;
os bretões são educados, falam ao contrário (numa tradução direta do inglês, como "Eu peço seu o perdão?"), bebem cerveja quente e água quente com leite (até Asterix trazer o chá) e se conduzem pelo lado esquerdo da estrada;
a Hispânia é um local cheio de pessoas de sangue quente e turistas;
e os lusitanos são baixinhos e educados (Uderzo disse que todo os portugueses que ele conhecera eram assim).
Há também humor com franceses: os normandos comem tudo com creme, e os corsos são preguiçosos e têm queijos nauseabundos.


COMO TUDO COMEÇOU

Asterix, o pequeno guerreiro gaulês que conquistou várias gerações de leitores, celebrou seu 50º aniversário no dia 29 de outubro com um novo livro, o de número 34 da série, e deve continuar resistindo à passagem dos anos.
Tudo começou em agosto de 1959 em um edifício de Bobigny, subúrbio do leste de Paris. René Goscinny e Albert Uderzo trocavam ideias sobre novos personagens para uma revista de quadrinhos que seria lançada em outubro.
E a ideia finalmente surgiu: dois gauleses, um baixinho e outro gordo. Em duas horas, Uderzo desenhou os primeiros esboços dos principais personagens: Abracurcix, o chefe da aldeia, Panoramix, o druida, Chatotorix, o bardo, e Ideiafix, o cão. Dois meses depois, Asterix e Obelix apareciam pela primeira vez no número um da revista Pilote.
Passados dois anos, chegou às lojas o primeiro livros de Asterix, com uma tiragem de 6.000 exemplares. O sucesso foi imediato. Asterix e seus gauleses passaram a fazer parte da vida dos franceses. Em setembro de 1966, a revista L'Express estampou em sua capa o que chamou de "o fenômeno Asterix".
Goscinny, filho de uma família judia de origem polonesa, e Uderzo, filho de imigrantes italianos, criaram uma mitologia francesa.
Na França dos anos 60, Asterix se transformou em um símbolo do orgulho recuperado, do pequeno que se recusa a capitular e resiste ao poder dos maiores.
Na época, eram publicados um ou dois livros por ano. Rapidamente, a série se popularizou para além do universo infantil, criando uma legião de fãs entre jovens e adultos. Foi a época dos primeiros desenhos animados. A partir de 1967, a primeira edição de cada livro começou a ultrapassar um milhão de exemplares.
O mais surpreendente, no entanto, foi que a história fez tanto sucesso na França quanto fora dela: em 50 anos, foram vendidos em todo o mundo mais de 325 milhões de exemplares das aventuras de Asterix, e a série já foi traduzida para 107 idiomas.
Este êxito fenomenal quase terminou em novembro de 1977, quando René Goscinny, o genial roteirista que encarnava o "espírito" de Asterix faleceu subitamente.
Albert Uderzo, no entanto, decidiu continuar a série sozinho e lançou mais dez títulos em 30 anos.
No final dos anos 90, o cinema fez reviver a célebre dupla de gauleses com três longa-metragens, que juntos tiveram mais de 60 milhões de espectadores.
O sucesso de Asterix desperta ambições, e houve muitas propostas para retomar a série. No fim de 2008, Uderzo decidiu vender à Hachette Livres a editora Albert René, criada por ele em 1979.
Asterix, então, passou dos quadrinhos aos tribunais, quando o desenhista foi acionado por sua única filha, Sylvie Uderzo, que reclamou das condições da venda.
Ao vender sua editora à Hachette, Albert Uderzo, hoje com 82 anos de idade, aceitou que as aventuras de Asterix continuem depois de sua morte. Para isso, encarregou oficialmente os desenhistas Fréderic e Thierry Mébarki, que trabalham com ele há anos. Resta encontrar um roteirista que aceite o desafio de criar novas histórias para os irredutíveis gauleses.

“Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum..."
Todos os quadrinhos de aventuras do Asterix e do Obelix, esses dois simpáticos e maravilhosos gauleses, começam com esse trecho acima e com um mapa.
Nossos amigos vão passando por diversas aventuras sempre tendo como pano de fundo à roma Antiga de César e companhia.
O interessante de cada título é que aprendemos muito sobre a história antiga real através deles. Obelix, acredito que seja o personagem mais encantador. Com seu menir nas costas, com o companheiro IDEAFIX e com seu apetite por javalis, é doce e com muito bom humor, pode ser bem durão quando se trata de salvar os amigos. É, sem dúvida, o pesadelos das legiões romanas, sendo muito divertidas as passagens em que bate numa legião inteira as vezes até sozinho. Já Asterix, é astuto e inteligente, o grande pensador da aldéia além de parceiro inseparável de Obelix.
Outros personagens desta aldeia são: Chatotorix, que é o bardo chato que sempre acaba o episódio pendurado, amarrado na árvore e amordaçado, o Abracurxix que é o chefe.
Os gaulês são corajosos e adoram uma briga, mas só tem um medo:
"Que o céu caia sobre suas cabeças".

Estão entre os melhores títulos:

Asterix, O Gaulês;
Asterix entre os Bretões;
Asterix nos Jogos Olímpicos;
Asterix e o Adivinho;
A Odisséia de Asterix;
Os Doze Trabalhos de Asterix,
entre outros.

Além dos quadrinhos, suas aventuras também aparecem em filmes e desenhos animados.
O terceiro longa-metragem a chegar às telonas é “Asterix nos Jogos Olímpicos”, lançado no Brasil simultaneamente com as Olimpíadas de Pequim, na China.
O filme é baseado na história em quadrinhos homônima publicada originalmente em 1968.
O enredo mostra que, ao descobrirem que há uma competição esportiva entre gregos e romanos, a cada quatro anos, Asterix e seus companheiros ficam interessados em participar e partem para a Grécia, para desespero dos súditos de César.
Além do talento expresso nos desenhos e nos roteiros bem-humorados, o segredo do sucesso das historinhas de Asterix, o gaulês, passa pelo tema universal da vitória do mais fraco sobre o mais forte.
Jovens e adultos têm sido cativados pelas hilariantes aventuras dos habitantes de uma pequena aldeia gaulesa nos anos 50 antes de Cristo, que infernizam e ridicularizam um dos maiores e mais poderosos impérios da história.
Aventuras que consagram o espírito da rebelião gaulesa que aconteceu na mesma época liderada por Vercingétorix, que enfrentou de verdade durante quase dois anos as legiões do Império Romano chefiadas por Júlio César.

Biografia de Asterix

Asterix é um guerreiro gaulês, que no ano 50 A.C. vive numa aldeia da Armórica que resiste bravamente á ocupação de Júlio César e o Império Romano. Essa aldeia tem um druida, Panoramix, que prepara uma poção mágica que dá força sobre-humana.
Filho de Astronomix e Pralina, Asterix nasceu no mesmo dia que seu melhor amigo, Obelix (embora em Obélix e Companhia se comemore apenas o aniversário de Obelix). Ele é pequeno porém corajoso, e um dos mais sábios e sãos habitantes da aldeia (conhecida por "aldeia dos loucos"), e por isso geralmente é designado para missões. Sua idade não fora determinada, embora apenas se saiba que ele não participou da batalha de Alésia.
Asterix é solteiro, e embora não tenha sido introduzido um interesse romântico para ele (ao contrário de Obelix, apaixonado por Falbala), o gaulês aparecera por duas vezes afetado por um beijo, por Falbalá em Asterix Legionário e por Latraviata em Asterix e Latraviata.
Uma característica marcante do visual do personagem é seu capacete alado, com as asas alterando-se junto com o humor do personagem.
Fora interpretado no cinema por Christian Clavier (2 filmes) e Clovis Cornillac (um filme). Asterix é dublado em francês por Roger Carel. No Brasil, Carlos Silveira faz o personagem (exceto em Astérix et les Vikings, por Rodrigo Scarpa).


Obelix, interpretado por Gerard Depardieu, com seu cãozinho Idéiafix em cena do longa-metragem "Asterix nos Jogos Olímpicos"


Asterix e a vingança dos gauleses

Na real, as tropas romanas não tiveram muito trabalho para conquistar a Gália. Exceto pelo período em que Júlio César foi obrigado a enfrentar a rebelião gaulesa chefiada por Vercingétorix, não houve maiores problemas. Mas, não há melhor vingança do que séculos depois tornar um sucesso mundial essa história recontada sob o ponto de vista dos gauleses.
Claro que desta vez eles não só resistem como ridicularizam o domínio romano. Para deixar isso evidente, todas as historinhas de Asterix começam mostrando a desproporção de forças entre os irredutíveis gauleses e as legiões romanas. Numa Europa ocupada por milhões de súditos de César, resta uma ínfima aldeia a ser conquistada. Não por acaso, ela foi geograficamente localizada pelos criadores de Asterix, Alberto Uderzo e René Goscinny, na Britânia, uma região historicamente rebelde, de tradições separatistas e cheia de lendas sobre magias e heróis aventureiros, como a do Rei Arthur.
É nessa aldeia que vive Asterix, um baixinho e astuto guerreiro gaulês, que tem como companheiro inseparável Obelix, um carregador de menires de força sobre-humana que adora uma boa briga e javalis assados. O segredo da resistência gaulesa vem de uma poção mágica criada pelo druida Panoramix que faz com que Asterix e seus companheiros fiquem muito mais fortes do que seus adversários. As vítimas mais rotineiras deles são os legionários das quatro guarnições romanas que ocupam os campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum, no entorno da aldeia.
O humor refinado das historinhas vai das brincadeiras com a linguagem até citações que misturam fatos e personagens históricos com situações e comportamentos contemporâneos.

Em “Asterix e Cleópatra”, as falas dos egípcios são retratadas nos balõezinhos em hieróglifos, às vezes “dublados para comodidade dos leitores”.

Em “Obelix e Companhia”, o plano romano para conquistar os gauleses é ocupá-los o tempo todo para que eles fiquem sem tempo para lutar. O plano foi traçado por Caius Saugrenus, um personagem romano igual ao então prefeito de Paris Jacques Chirac, quando a historinha foi escrita.
Ele prevê que os gauleses forneçam incessantemente menires para o Império Romano. Mas, a idéia vai por água abaixo quando há uma saturação de menires e seu preço despenca, obedecendo às leis de oferta e procura do mercado.

Cena do filme "Asterix nos Jogos Olímpicos": os longas-metragens apesar de baseados nos quadrinhos têm focado o público infantil

As narrativas sempre trazem também uma crítica bem-humorada aos comportamentos, principalmente aos modismos. Nos quadrinhos “O Combate dos Chefes”, o chefe gaulês Tomix aderiu completamente aos romanos e exige que todos os aldeões usem toga e cabelo curto. Para ter mais pinta ainda de romano, ele pensa em construir um aqueduto. Mesmo que para justificar ter esse símbolo arquitetônico romano tenha de desviar o rio que já atravessa a aldeia. Em “O Domínio dos Deuses”, Júlio César refere-se a si mesmo sempre na terceira pessoa, o que causa uma divertida confusão em suas comunicações com os súditos.
Com esses elementos, os quadrinhos de Asterix são um sucesso internacional desde os anos 60. Ao atingir uma popularidade comparável a de personagens da Disney ou aos super-heróis norte-americanos, Asterix ajudou a fortalecer a identidade cultural dos franceses. Mas, mais do que isso, as historinhas mesmo situadas no mundo antigo, décadas antes de Cristo, mostram heróis, personagens e situações que ironizam valores e atitudes do mundo contemporâneo de uma forma otimista e divertida.


Algumas das melhores historinhas de Asterix

Não é fácil selecionar quais são as melhores histórias em quadrinhos de Asterix. Mas, para começar podemos situá-las entre aquelas escritas por René Goscinny. Foram 23 roteiros completos, desde “Asterix, o Gaulês”, de 1961, até “Obelix e Companhia”, de 1976. Quando morreu em 1977, Goscinny estava escrevendo “Asterix e os Belgas”, que foi finalizado por Uderzo e lançado em 1979.

Seqüência de "Asterix e Cleópatra": a fala dosegípcios parece como hieróglifos nos balõezinhos


Em “Asterix e Cleópatra”, uma aposta entre a rainha do Egito e o imperador romano Júlio César leva Asterix, Obelix, Idéiafix e Panoramix para Alexandria. Para provar a capacidade dos egípcios, Cleópatra promete a César a construção de um palácio em sua homenagem em três meses. O arquiteto Numeróbis fica encarregado do feito e, para evitar que seja lançado aos crocodilos caso falhe, acaba por recorrer ao seu amigo Panoramix. O divertido pastiche histórico habitual em Asterix mostra nesta historinha a inserção de questões trabalhistas modernas no sistema de trabalho do Egito antigo. Assim, as chicotadas nos trabalhadores obedecem a um sistema de turnos e revezamento e uma greve é feita para reivindicar a diminuição do número de chicotadas. Outras piadas históricas incluem a perda de parte do nariz da Esfinge após Obelix tentar escalá-la e a frase de Panoramix parodiando Napoleão: “Do alto dessas pirâmides, Obelix, vinte séculos nos contemplam”.
Em “Asterix e os Bretões”, a historinha começa com Júlio Cesar indo com toda sua frota e exércitos conquistar a Bretanha. Apesar de bravos guerreiros, os bretões mantinham hábitos excêntricos, como parar a batalha todos os dias às cinco da tarde para tomar água quente com tostadas ou descansarem dois dias a cada sete, no que chamavam de fim de semana. Assim, a sagacidade de Júlio César o levou a atacar os bretões apenas após as cinco da tarde e nos dias em que eles repousavam. Isso fez com que a Bretanha fosse quase que inteirinha dominada pelos romanos. Quase, porque uma ínfima aldeia resiste aos ataques.


Goscinny
Para ajudá-la resolvem recorrer a seus amigos gauleses, do outro lado do canal da Mancha.
Algumas das piadas giram em torno do modo de falar rebuscado dos bretões e de sua elegância, o que inclui roupas de tweed e o hábito de “sacudir as mãos” para se cumprimentarem.
Entre as típicas trapalhadas romanas sempre presentes, uma delas mostra os legionários confiscando e experimentando a bebida de todos os barris das adegas de Londinium para tentar encontrar a poção mágica dos gauleses.

No final, toda a tropa fica embriagada.

As piadas incluem também o fog londrino, a má culinária dos bretões e uma aparição dos bardos mais famosos da época, numa clara referência aos Beatles.

Em “O Domínio dos Deuses”, o plano de Júlio César para finalmente derrotar os irredutíveis gauleses é a construção de um supercondomínio de luxo rodeando a aldeia. Algumas das cenas mais engraçadas se concentram nas atrapalhadas tentativa dos romanos de derrubarem a floresta no entorno da vila gaulesa para iniciarem as obras. Tendo à frente o arquiteto Compassus, contramestres e escravos iberos, lusitanos, númidas, belgas e godos são enviados para iniciarem o trabalho de retirada das árvores.

Albert Uderzo

Escoltados pelas legiões romanas locais que, calejadas de apanharem dos gauleses, os orientam a fazerem o mínimo de barulho para não terem sua presença notada.

Os exóticos comportamentos e a malandragem dos escravos constroem cenas antológicas onde os romanos acabam sempre ridicularizados.

Esses são apenas alguns exemplos de como as aventuras de Asterix trazem divertidas ironias, que criticam do imperialismo aos modismos.

Cheias de referências que remetem o leitor a outros conteúdos culturais, as historinhas criadas por René Goscinny e Alberto Urdezo figuram entre as mais inspiradas obras das histórias em quadrinhos.

Mas só lendo para entender o quanto elas são divertidas.


Asterix nos Jogos Olímpicos, o filme
“Asterix nos Jogos Olímpicos” chegou aos cinemas como o terceiro longa-metragem que transporta as aventuras de Asterix dos quadrinhos para as telonas com atores de verdade. A historinha em que o filme se baseia, lançada originalmente em 1968, foi a quinta aventura de Asterix desenvolvida por Goscinny e Uderzo.
O argumento mostra que, ao descobrirem que há uma competição esportiva entre gregos e romanos a cada quatro anos e ficarem interessados em participar dela, Asterix, Obelix e os moradores da aldeia têm de assumir sua face galo-romana, pois só romanos e gregos podem competir nos Jogos. Mas há mais um detalhe importante, os gauleses não poderão tomar da poção mágica de Panoramix para competir.
Com participações especiais de Michael Schumacher e Zinedine Zidane, o filme traz o ator Clovis Cornillac como Asterix, Gerard Depardieu como Obelix e Alain Delon como Júlio César.

A direção é de Frédéric Forestier e Thomas Langmann, que após as primeiras críticas negativas em relação ao filme justificou que o público-alvo da produção são as crianças e não os adultos.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

VERCINGÉTORIX

Quem foi Vercingétorix?



Vercingétorix (72 a.C. — 46 a.C., Roma) foi o chefe gaulês do povo dos Arvernos que liderou a grande revolta gaulesa contra os romanos em 53-52 a.C. Seu nome em gaulês significa ver (" acima de", "supremo" ou "grande") ; cingéto ("guerreiro") e rix ("o rei" ou "o chefe").

Segundo se considerarmos que o ver se aplica a rei ou aos guerreiros, tem-se "o chefe supremo dos guerreiros", ou "o chefe dos grandes guerreiros".

Teria sido a inspiração para a criação de Asterix, personagem francês de história em quadrinhos e desenho animado.



A origem de Vercingétorix
Filho de Celtill, Vercingétorix serviu no exército romano e Júlio César, em 56 a.C., protegeu seu pai, permitindo-lhe afirmar-se como chefe de todos os arvernos, antes que estes assassinassem esse homem ambicioso que manifestava a intenção de ser rei. César, então, não interveio.



Revolta na Gália
A conquista da Gália pareceu fácil, apesar de alguns reveses, de alguns fracassos do lado dos germanos, do lado dos bretões da Inglaterra e dos venenses da atual Bretanha. Simplesmente mostramos sua importância política e a popularidade que César podia obter dela não somente em Roma, mas também junto a suas legiões, trampolim para um poder irrestrito que César utilizou sem vergonha e com o cinismo do um grande chefe militar e de um político capaz de todas as manobras e ardis para chegar a seus fins.
Durante o primeiro semestre do ano 53 a.C., aldeias foram incendiadas, povos foram massacrados, sobretudo entre os belgas. César fingiu acreditar que a Gália estava novamente pacificada, mas esperava pelo pior, e isso aconteceu em 23 de janeiro de 52 a.C., quando, na floresta de Orléans, no território dos carnutos, foi decidida, por ordem dos druidas e dos chefes gauleses finalmente reunidos, uma insurreição geral da Gália.
Essa insurreição revelou-se tanto mais necessária a seus chefes quando estes, bem-informados, seja por prisioneiros romanos, seja por espiões gauleses presentes em Roma e capazes de transmitir-lhes mensagens, não ignoravam as dificuldades políticas que os partidários de César enfrentavam em Roma.
Os carnutos, em 13 de fevereiro de 52 a.C., massacraram então os cidadãos romanos de Orléans e a notícia foi transmitida a toda a Gália por homens postados de distância em distância nas colinas e nas árvores; para a grande estupefação de César, atravessou centenas de quilômetros em algumas horas, de modo que todos os gauleses foram informados em pouco tempo.
Os avernos estavam sob a chefia de Vercingétorix.


Vercingétorix chefia a rebelião

Estátua eqüestre de Vercingetórix.


Vercingetórix, de início, encontrou dificuldades pela frente.
Foi expulso de Gergóvia, sua cidade natal, pelos dirigentes da comunidade que, por um lado, não queriam se lançar no que consideram como uma aventura e, por outro, viam com desconfiança o filho de Celtill que podia também querer reivindicar a coroa de rei dos arvernos, como fizera o pai, com o fim trágico que todos conhecem.
Vercingétorix sabia-se popular ir nos campos e recrutou vagabundos, diz-nos César, e certamente muitos camponeses ou mesmo lavradores privados de suas terras pela ocupação romana.
Com esse primeiro exército, penetrou em Gergóvia, exortou os habitantes da cidade à resistência, acabou por convencê-los e por expulsar os covardes e os traidores.
Consciente de que pode realizar na urgência uma espécie de unidade nacional, da qual talvez tenha ainda um sentimento confuso mas mesmo assim profético, ele enviou mensagens aos principais povos da Gália para convidá-los a se rebelarem e a se colocarem sob sua autoridade.
Seus delegados foram bastante convincentes para obter a aliança de senenses, parisienses, pictos, cadurcos, turões, aulercos, lemovices, andecavos e todos os povos que viviam às margens do oceano Atlântico, a oeste da Gália.
Para estar seguro de sua lealdade, exigiu, segundo o costume, que lhe fossem entregues reféns que serviriam de garantia.
Excelente organizador, ele recrutou soldados em cada povo, ao qual ordenou a fabricação urgente de armas, dando prazos imperativos de entrega.
Sabia que a cavalaria é a arma do movimento e da decisão suprema numa batalha, e zelou por sua formação.


Ameaçou queimar vivos ou torturar até a morte os que pensassem em traí-lo, e inclusive deu exemplos aterrorizantes entre os que mostraram alguma fraqueza ou algum medo, cortando-lhes as orelhas ou furando-lhes os olhos, antes de enviá-los de volta para casa.
Escolheu um de seus lugares-tenentes, Luctero, um cadurco, para comandar um exército que se instalará entre os rutenos do Rouergue (sul da França atual), enquanto partiu à frente de um exército sólido e disciplinado, o que era uma novidade entre os gauleses.
Mas Vercingétorix serviu no exército romano, entre os bitúrigos. Estes, aliados de César, pediram auxilio aos éduos, que enviaram tropas e cavaleiros, mas, temendo a aliança dos bitúrigos com os arvernos, não atravessaram o rio Loire e voltaram para suas terras.
O temor tinha fundamento, pois os dois povos uniram, de fato, seus exércitos.
Por seu lado, Luctero sublevou os povos do centro da Gália para poder atacar a província da Narbonesa.
César, ao tomar conhecimento dessas más notícias da Gália Cisalpina, para onde se retirou, como de hábito, para passar o inverno, estava diante de um dilema, na falta de tropas suficientes. Devia dirigir-se para Bourges ou para a Narbonesa, sabendo que em ambas as hipóteses se arriscava a perder?
Ele escolheu a segunda, próspera e pacificada há muito tempo, preferindo o risco de perder territórios do lado das Gálias do que ver uma província romana recair sob a dominação gaulesa.
Chegando a esta, e após uma visita de inspeção a Toulouse e a Narbonne, enviou contingentes armados aos hélvios do Vivarais para pressionar os vizinhos destes, isto é, os arvernos de Vercingétorix, por sua presença militar ameaçadora.
Ele próprio, contra toda expectativa nesse período de inverno, conseguiu atravessar em pouco tempo a região das Cévennes e atacar o território dos arvernos, que chamaram Vercingétorix em socorro.
Depois, deixando o grosso do exército aos cuidados de Bruto, César foi a Viena, onde se achavam importantes elementos de uma cavalaria pronta a combater, e, remontando em direção ao norte, atravessou o país dos éduos, cuja atitude hesitante lhe pareceu suspeita, para mostrar sua força, e acampa entre os língones.
Vercingétorix, segundo as previsões de César, desguarnece então suas posições do lado de Bourges e parte às pressas para Gergóvia, a fim de auxiliar seus compatriotas.
César deixou em Sens duas legiões e, após confiar uma parte das tropas a seu lugar-tenente C. Trebônio para fazer o assédio a uma cidade gaulesa do Morvan (talvez Beaunet, no Loiret), cerca a cidade de Genabum (Orléans) com duas legiões que se instalam junto à ponte sobre o Loire para impedir a fuga dos habitantes.
Estava decidido a punir de maneira exemplar essa cidade que deu o sinal da insurreição e após tomá-la com facilidade, mostra-se implacável: seus liderados queimaram, saquearam e massacraram.
César marcha, a seguir, sobre Bourges.
Advertido dessa aproximação, Vercingetórix deixou precipitadamente Gergóvia e retornou em direção a Bourges, indo primeiro em auxílio de uma cidade em bitúrigos, cuja localização exata é hoje difícil de saber e as legiões de César invadiram, antes de os centuriões e as tropas tomarem posse.
À aproximação da cavalaria ilesa e dos primeiros elementos do exército de Vercintóirix, os habitantes dessa cidade, inicialmente submetidos pelos romanos, buscaram livrar-se deles, mas, vendo que a cavalaria gaulesa fora derrotada pelos cavaleiros romanos, acabam se submetendo definitivamente.
César, tranquilizado, prosseguiu seu caminho em direção a Avaricum (Bourges).
Ao dividir as tropas gaulesas por suas investidas, ao surgir onde não era esperado, ele desorganizou o dispositivo militar de Vercingétorix e desmontou a armadilha que o obrigava a escolher entre a perda da Narbonesa ou das Gálias.
Daí por diante, ele foi de novo o mestre do jogo militar.
Vercingétorix decidiu então empregar meios extremos e praticar o que chamaríamos hoje a política da terra arrasada.
Os gauleses corajosamente a aceitaram como um último recurso. Incendiaram suas aldeias e casas a fim de impedir os romanos de se reabastecerem de forragem e alimentos de primeira necessidade.
Queimaram inclusive cidades, não apenas entre os bitúrigos mas entre seus vizinhos, ou em regiões limítrofes que os romanos teriam tentado ocupar para escapar à escassez.
César, que conhecia perfeitamente a psicologia dos gauleses, escreve a esse respeito:

Se tais meios parecem duros e rigorosos, os gauleses devem achar ainda mais dura a perspectiva de verem seus filhos, suas mulheres reduzidos à escravidão e eles próprios perecerem, sorte inevitável dos vencidos. (...) Por todos os lados só se vêem incêndios: esse espetáculo causava uma aflição profunda e universal, mas seu consolo era a esperança de uma vitória quase certa que faria esquecer prontamente, todos esses sacrifícios.


A questão colocou-se a Vercingétorix: Bourges devia também ser queimada?
O chefe gaulês estava decidido a isso, mas os habitantes da cidade lhe imploram a não agir assim, argumentando que Bourges seria facilmente defendida, situada numa colina e cercada de um rio e de um pântano.
Vercingétorix cedeu a esse pedido e confiou a defesa do lugar a seus melhores soldados.
A piedade, num militar, é má conselheira: Vercingétorix acabou de cometer um erro que não deve ser cometido e que terá tristes consequências.
Ele retirou-se na retaguarda de Bourges com seu exército de reserva e observou de longe, por seus batedores, o avanço romano, ao mesmo tempo em que mantinha contato com os habitantes de Bourges, encerrados em sua cidade e dispostos a suportar um longo cerco que César empreendeu sem hesitar.
Quando soldados romanos se afastaram demais da tropas para buscar forragem e víveres, Vercingétorix os atacou, os dispersou e causou também uma grande carnificina.
O cerco de Bourges foi marcado por episódios sangrentos, e nem sempre César e suas legiões tiveram a vantagem, isso porque os habitantes da cidade resistiram até à fome, e os exércitos gauleses de apoio desferiram golpes muito duros contra os soldados romanos.
Vercingétorix foi obrigado a afastar-se para tomar distância, elaborar uma nova estratégia e buscar o contato com o inimigo. Mas sua ausência é vista como suspeita e fala-se mesmo, nas fileiras gaulesas, de traição.
Esse episódio poderia ter custado a carreira e a vida de Vercingétorix.
Ele voltou ajuntar-se aos seus, que se inquietavam com sua ausência. Foi acolhido sem amenidade por seus soldados, cujas suspeitas nos são relatadas por César em frases:

"Todas essas circunstâncias não podiam ter acontecido por acaso e sem intenção da parte dele. Ele preferia ter império da Gália com o consentimento de César do que com o conhecimento de seus compatriotas."


Vercingétorix, diante dessa rebelião verbal que poderia se transformar em revolta declarada, não perdeu a calma, explicou as razões da ausência e por que não delegou então seu comando nem se lançou ao combate.
Impressionados, os gauleses aprovaram ruidosamente, batendo, como de costume, espada contra o escudo, aclamando seu chefe e censuram-se por terem duvidado dele por um momento. Mas o cerco a Bourges prosseguiu e tornou-se insuportável para a população civil.
As legiões romanas acabaram por assaltar a cidade, derrubaram as fortificações e massacraram muitos habitantes, em represália aos assassinatos de cidadãos romanos cometidos em Orléans. Não pouparam nem velhos, nem mulheres, nem Crianças. Os poucos sobreviventes buscam a proteção de Vercingétorix, que os acolhe em seu acampamento, mas cuidaram para abrigá-los num local retirado, para que esses derrotados não provocassem o pânico e a sedição nas fileiras de seu exército.
Ao raiar do sol, Vercingétorix, num discurso às tropas, lembra que nunca desejou defender Avaricum e lhes promete amanhãs felizes e vitoriosos com o prosseguimento de seu trabalho de unificação de toda a Gália, pedindo a todas as cidades gaulesas que forneçam recrutas.
César desceu então o vale do Loire e do Allier para chegar a Gergóvia, entre os arvernos, e impor-lhe o cerco, sabendo o quanto essa cidade natal de Vercingétorix tinha um poder simbólico.
Encarregou seu lugar-tenente Labieno, que se encontrava em Sens, de dominar os parisienses de Lutécia que, sob o comando do aulerco Camulogenos, originário de Evreux, também tomaram parte no levante geral.
Pela primeira vez o nome de Lutécia, isto é, a capital do povo dos parisienses, foi mencionada na História romana.
Labieno deixou os mais jovens de seus recrutas em Agendicum, isto é, em Sens, e dirigiu-se a Lutécia com quatro legiões.
Depois de muitas hesitações e diversas peripécias, Cainulngenos e seu exército gaulês se instalaram na margem esquerda do rio Sena (na altura atual da praça Saint-Germain-des-Prés), e enquanto os soldados de Labieno acamparam na margem direita, no local hoje do Louvre.
Com astúcia e valendo-se de uma tempestade e da noite, uma frota de pequenos barcos carregados de legionários conseguiu passar e desembarcar na atual Maison de la Radio.
Avisados, os gauleses acorreram ao local que seria a planície de Grenelle e lançaram-se a uma luta que lhes seria desfavorável, apesar da valentia e da coragem do chefe Camulogenos, que morreu na batalha.
Para escapar ao massacre, os gauleses fugiram imediatamente para as colinas de Meudon e de Issy, mas foram exterminados pela cavalaria romana lançada a seu encalço.
Após essa expedição, Labieno voltou a Agendicum (Sens), onde foram deixadas as bagagens de todo o exército.
Dali partiu ao encontro de César com todas as suas tropas.
Nesse meio-tempo, César cercou Gergóvia, cidade natal de Vercingétorix mas, uma revolta dos éduos o obrigou a abandonar o projeto de apoderar-se dessa cidade altamente simbólica. Naturalmente, apresentou sua retirada como uma necessidade estratégica e dirigiu-se em marcha forçada rumo a Bibracte, onde jogou com a rivalidade entre os chefes dessa cidade.
Após muitas lutas, matanças e escaramuças muitas vezes sangrentas, resolveu a questão e subjugou esse povo que havia muito dizia-se seu aliado e que, no entanto, assinou clandestinamente um tratado de aliança com Vercingetórix.
Este, encurralado pelas legiões de Labieno e de César que acabam de se juntar, vendo sua cavalaria e sua infantaria em debandada, pediu às nações gaulesas limítrofes o apoio à sua causa. Não lhe restou senão um único recurso estratégico: encontrar um sítio geograficamente inexpugnável e entrincheirar-se ali com todo o seu exército. Ele escolheu Alésia.
O cerco de Alésia pelos romanos, em agosto e setembro de 52 a.C., e a resistência dos gauleses fazem parte da gesta nacional de uma Gália unificada provisoriamente como nunca havia sido, e tanto da lenda quanto da História.
César compreendeu isso e se estendeu longamente sobre o que deveria marcar simbolicamente o fim da independência gaulesa.
Militarmente, porém, o bloqueio e a tomada de Alésia nada tiveram de excepcional, os legionários romanos servindo-se de todas as máquinas de guerra habituais, das torres de aproximação, elevando linhas de circunvalação e túneis, rechaçando os exércitos de apoio gauleses ou as saídas dos sitiados, sobretudo graças à cavalaria constituída de auxiliares germanos, e acabando por privá-los de água e de alimento, ante a investida bem-sucedida dos romanos.
Um último exército de apoio gaulês foi despedaçado. Os sitiados de Alésia, vendo os restos desse exército debandarem, compreenderam que tudo estava perdido.
Vercingétorix convocou então uma assembléia e comentou assim sua derrota, dizendo, segundo César, "que não empreendeu essa guerra para seus interesses pessoais, mas para a defesa da liberdade comum; e que, sendo preciso ceder ao destino, oferecia-se a seus compatriotas, deixando-lhes a escolha de apaziguar os romanos por sua morte ou de entregá-lo vivo".
Negociadores foram enviados a César que ordenou o desarmamento dos gauleses e a convocação de todos os chefes inimigos perante seu tribunal. Entre eles, Vercingétorix.


A Rendição de Vercingétorix


Rendição de Vercingétorix.


Júlio César foi voluntariamente lacónico sobre a rendição daquele que o enfrentou durante um ano e que conseguiu reunir os povos da Gália, o que era inimaginável para um romano.
Ele não quis fazer de Vercingétorix um herói nem um mártir.
Outros historiadores relataram a cena que forneceu o tema de muitos quadros de pintores de História, sobretudo no século XIX.
Ela não engrandece César, menos irritado pela coragem desse inimigo que ele admira implicitamente do que pela perda de tempo que este lhe impôs, obrigando-o a desviar-se do essencial, isto é, a política que se faz em Roma, nesse meio tempo, sem ele e sobretudo contra ele. Essa cólera foi expressa numa atitude mesquinha que não era digna de César.
Ele perdeu a serenidade. Foi Amédée Thierry, irmão esquecido de Augustin Thierry, que, levando em conta informações antigas sobre esse encontro último e trágico entre César e Vercingétorix, especialmente as de Dião Cássio e de Plutarco forneceu o melhor relato, em sua História dos gauleses:


Vercingétorix rende-se a César.


"Vercingétorix não esperou que os centuriões romanos o arrastassem de pés e punhos atados até os joelhos de César.
Montando um cavalo ajaezado como para um dia de batalha, vestindo ele próprio sua mais rica armadura, saiu da cidade e atravessou a galope a distância entre os dois acampamentos, até o lugar onde estava o procônsul. Fosse pois que a rapidez da corrida o levasse muito longe, fosse porque estivesse cumprindo apenas um cerimonial antiquado, ele girou em círculo em volta do tribunal, saltou do cavalo e tomando a espada, o dardo e o capacete, lançou-os aos pés do romano, sem pronunciar uma palavra".
Esse gesto de Vercingétorix, seu brusco aparecimento, seu porte elevado, seu rosto orgulhoso e marcial causaram entre os espectadores uma comoção involuntária.
César ficou surpreso e quase assustado. Guardou o silêncio por alguns instantes. Mas em seguida, explodindo em acusações e invectivas, censurou o gaulês por "sua antiga amizade, por seus benefícios que ele havia retribuído tão mal".
Depois, fez um sinal a seus lictores para que o atassem e o arrastassem pelo acampamento. Vercingétorix sofreu em silêncio.
Os lugares-tenentes, os tribunos, os centuriões que cercavam o procônsul, mesmo os soldados, pareciam vivamente comovidos.
O espetáculo de um tão grande e nobre infortúnio falava a todas as almas.
Somente César permaneceu frio e cruel.
Vercingétorix foi conduzido a Roma e lançado num cárcere infecto, onde esperou durante seis anos que o vencedor viesse exibir no Capitólio o orgulho de seu triunfo, pois somente nesse dia o patriota gaulês haveria de encontrar, sob o machado do carrasco, o fim de sua humilhação e de seus sofrimentos.
Após sua rendição, Vercingétorix foi levado prisioneiro a Roma e jogado em uma cela.
Sobreviveu até o triunfo final de César, e muito provavelmente morreu estrangulado na prisão Mamertina em 46 a.C..


Fontes
. Júlio César - De Bello Gallico - Comentários sobre a Guerra da Gália.
. DANDO-COLLINS; Stephen. A legião de César.

terça-feira, 25 de maio de 2010

GUERRAS DA GÁLIA

Mapa das incursões de César pela Gália.



A série de campanhas de Júlio César iniciadas em abril de 58 a.C. e finalizadas durante a primavera de 52 a.C., quando, após um cerco de dois meses, César apoderou-se de Alésia e aprisionou Vercingetórix, líder dos Gauleses, são designadas historiograficamente por Guerras da Gália (ou Gálicas).


Estas campanhas permitiram estabelecer o domínio romano sobre a Europa a oeste do rio Reno (Gália Transalpina).
Após atravessar a a Gália Transalpina, César expulsou as tribos germânicas fixadas ao sul e ao leste, as belgas ao norte e os vênetos a oeste. Atravessou o Reno para mostrar o poder de controle das fronteiras.

Ele estava favorecido pela desunião intertribal e subjugou implacavelmente as costas norte e oeste e invadiu por duas vezes (55 a.C. e 54 a.C.) a Bretanha, que era vista como refúgio belga e uma ameaça para Roma.

No inverno de 53 a.C.-52 a.C., Vercingetórix reuniu as tribos da Gália central numa unidade incomum, promovendo a insurreição dos povos da Gália iniciado com o massacre dos Romanos em Orléans.

Em longa e amarga batalha, César derrotou Vercingetórix e os seus sucessores, o que culminou na rendição do chefe gaulês.
A Gália, que ocupava apenas uma parte do noroeste da península Itálica (Gália Cisalpina) e uma estreita faixa de terra ao sul da atual França (Gália Narbonense), passou a incluir o equivalente ao atual território da França e da Bélgica.


De Bello Gallico


De Bello Gallico.



Júlio César escreveu um livro relatando as diversas campanhas na então Gália, o De Bello Gallico ("Das Guerras na Gália").



A obra é de interesse inquestionável como relato das campanhas, já que foi escrita por um dos protagonistas, embora a interpretação do seu conteúdo seja largamente discutida, considerando muitas passagens como propaganda de César sobre o seu exército e sua capacidade de liderança.
Existe até mesmo uma edição acrescida de comentários de Napoleão Bonaparte.


A conquista da Gália por Júlio César
Há dois mil e cinquenta anos, Júlio César, um dos mais célebres estadistas romanos, publicou um relato da sua campanha contra as tribos celtas que então viviam espalhadas por regiões que hoje fazem parte da Suíça, França, Bélgica e Inglaterra, denominando-o Commentarii de bello gallico ("Comentários sobre a Guerra Gálica"), que o consagrou como um excelente historiador.
A Gália nos tempos de Júlio César (58 a.C.).


Seu livro tornou-se leitura obrigatória para os estudantes de latim.

Que extensão tinha a região conquistada pelos romanos e quem eram as tribos e qual a cultura dos que lá habitavam e como fez César para dominá-la, é o que o se segue.
César abre a primeira página do seu livro com uma das suas mais conhecidas frases: Gallia est divisa in partes tres ("a Gália está toda dividida em três partes").


E, de fato, assim era. Bem ao norte, a "Terra dos Celtas" era habitada pelos belgas, no centro pelos gauleses propriamente dito, e, ao sul dela, pelos aquitânios.

Politicamente, a parte meridional encontrava-se nas mãos dos romanos desde 222 a.C.-121 a.C., que a denominavam de Gália Narbonense, tendo como seu principal centro, o porto de Marselha.
A posse dessa região costeira do Mediterrâneo permitia-lhes trafegar de maneira segura pela Via Domitia, a estrada que ligava a fronteira da Itália ao Leste, com a da Ibéria, ao Oeste. Geograficamente, ela se estendia de Milão, no vale do Rio Pó, até o sopé das montanhas dos Pirenéus.

Foi para lá que enviaram Caio Júlio César, de distinguida e aristocrática família latina, como pro-cônsul da Gália Narbonense, no ano de 59 a.C.
O povo que lá vivia, no que os romanos denominavam de Gália Comata, eram os celtas, separados entre si pelas mais diversas razões.

Dividiam-se eles, de um modo geral, em galos Heudos, Arvernos, Belgas, e nos que compunham as tribos marítimas que habitavam nas margens do Atlântico (onde hoje se situam a Bretanha e a Normandia, regiões da França).

Esses gauleses, rústicos e durões, que até então estavam fora da órbita romana, eram chamados de "galos cabeludos" (Gallo comata), para separá-los dos chamados "galos togados" (já totalmente romanizados).
Caçadores e guerreiros, envolvidos em intermináveis desavenças tribais, os galos cabeludos desprezavam a atividade agrícola, apesar da grande fertilidade do solo da França.

Dedicavam-se à criação de cavalos e de gado doméstico, havendo porém entre eles grandes artistas no trabalho com bronze, estanho e objetos de prata.

O pouco comércio que conheciam era em geral praticado por comerciantes romanos que trafegavam pelos seus rios e aldeias, trazendo-lhes produtos de fora.


Reis, chefes e druidas
A organização política dos gauleses, ou a ausência dela, foi sua perdição.
Os territórios celtas continham inúmeras tribos que ora eram governadas por um pequeno número de nobres guerreiros, outra por reis ou chefes clânicos, e até por um curioso tipo de magistrado, o Vergobret, escolhido, tal como o cônsul romano, por um período de um ano.
Para o leitor de César, fica evidente que a diversidade política dos galos cabeludos, e o desacerto que dai decorre, facilitou sua capitulação final frente aos romanos.

Contra os galos cabeludos, César pôde exercer a plenitude da máxima Divide ut regnes ("Divide e domina"), tática que os líderes romanos sempre souberam tão bem aplicar contra os outros povos.


As deidades celtas
(Veja artigo: mitologia céltica)

Se eles desacertavam-se, envolvidos em intermináveis rixas tribais, havia porém um sentimento unívoco de eles pertencerem a um único universo religioso. Belenus, o deus da luz, Belisama, a deusa da luz e do fogo, Cernunnos, o deus da fertilidade, Epona a protetora dos cavalos, e Smertrios, o deus da guerra (equivalente ao que Marte representava para os romanos), eram deidades sagradas em todo o mundo celta.
Existia entre eles a confraria dos druidas, os sacerdotes-xamãs que formavam a influente elite religiosa.
Anualmente, vindos das mais distantes regiões da Terra dos Celtas, eles se reuniam num grande concílio em Chartres (onde, bem mais tarde, no século XII, a Igreja Católica, para celebrar sua vitória sobre o paganismo, fez erguer uma das maiores catedrais da Europa), para trocarem receitas de poções e saberem das novidades.

A campanha de César na Gália
Sabendo explorar as desavenças e as eternas desconfianças reinantes entre os gauleses cabeludos, particularmente entre as duas grandes tribos que habitavam a parte central da Gália, os heudos e os arvernos, Júlio César se pôs em marcha.

O pretexto para intervir na Gália Transalpina foi a provável invasão dela pelos germanos, que faziam ameaças do outro lado do Rio Reno.
Com apenas quatro legiões (a 7ª, a 8ª, a potente 9ª***, e a 10ª), uns 24 mil homens, fora as tropas auxiliares, o romano deslocou-se pelos seis anos seguintes, entre 58 a.C. e 52 a.C. , por quase todo o território da Gália, impondo-lhe a obediência ao gládio e à lei de Roma.

Sob seu comando, à sua disposição, ele tinha uma das grandes invenções de Roma: a legião.

A legião romana

Impressionante parte da máquina de guerra romana, cada legião tinha um efetivo de 5000 a 5500 soldados engajados por contrato.

Disciplinados e bem treinados, divididos em coortes, em centúrias e decúrias, os legionários, auxiliados por uma cavalaria audaz, realizavam maravilhas nos campos de batalha. Não só neles. Mesmo no descanso, eles não tinham descanso. No acampamento era o momento em que o pilus (a lança) era substituída pela pá.
Com ela, cavavam uma trincheira retangular ao redor das barracas e erguiam paliçadas no perímetro delas para nunca serem apanhados de surpresa pelos inimigos.

Eram capazes de, arrumados em linhas (velites, manípulos de hastati, principes, e triarii), onde recrutas e veteranos se intercalavam, enfrentar contingentes de forças muito superiores às suas, graças à coesão e às táticas de luta em conjunto em que se exercitavam.
Em geral, os bárbaros, desconsiderando o comando único, atacavam em hordas, onde cada clã, quase cada guerreiro, tratava de vencer por si só a batalha, tornando-se presa fácil das organizadas tropas romanas.

Mesmo quando depois de ter recebido reforços (seu efetivo parece ter saltado para 50-55 mil homens), não deixa de ser impressionante o fato de Júlio César ter submetido um território de 600 mil quilômetros quadrados com tão pouca gente.

***Legio IX Hispana (ou nona legião hispânica) foi uma legião romana possivelmente recrutada por Júlio César em 58 a.C..
O último registo da atividade desta legião data do reinado de Marco Aurélio no século II.
O símbolo desta legião era desconhecido mas provavelmente um touro, como na maioria das legiões de César.
A IX Legio IX Hispana esteve presente durante todo o período das guerras da Gália e mais tarde permaneceu fiel a César na sua guerra civil contra a facção conservadora do senado, liderada por Pompeu.
Neste conflito, participaram nas batalhas de Durrës e Farsalos (48 a.C., na atual Grécia) e na campanha africana de 46 a.C..
Depois da sua vitória final em 45 a.C., César desmobilizou a legião e estabeleceu os veteranos na área de Picenum.
Depois do assassinato de César, Octaviano remobilizou a IX legião, assim como todas as outras legiões de César.
A IX foi enviada para a província da Macedónia. Durante a guerra civil contra Marco António permanceram ao lado de Octaviano e lutaram a seu lado na batalha de Áccio (31 a.C.).
Entre 25-13 a.C., participou na pacificação da Hispania Tarraconensis, então envolvida numa insurreição da tribo dos cantábrios.

É nesta altura que surge pela primeira vez o cognome Hispana, adquirido provavelmente pelos bons serviços prestados na campanha.
A IX Hispana fez parte do exército imperial do Rio Reno comandado pelos irmãos Tibério e Druso.
A campanha resultou na anexação da Germânia a Este do rio, mas o desastre da batalha da floresta de Teutoburgo obrigou ao abandono desta área em 9 d.C..
A legião foi deslocada então para a Panónia.
Em 43, participou na segunda invasão da Britânia, comandada pelo imperador Cláudio e permaneceram na nova província como guarnição.
A IX Hispana sofreu perdas significativas durante a rebelião de Boudicca, em 60, e teve de ser reforçada por legionários recrutados nas províncias germânicas.

No início do século II, a IX Hispana ainda se encontrava na Britânia, estacionada em Eburacum (moderna York).
Pouco depois, deve ter sido transferida para a Germânia Inferior.
Após 120 a legião desaparece dos registos. Deve ter sido destruída no reinado de Marco Aurélio, na revolta de Simon bar Kokhba (na década de 130) ou nas revoltas do Danúbio da década de 160.


O exemplo de César

O próprio Júlio César revelou-se um comandante notável.
Vestindo o paludamentum, uma cota militar vermelha para poder ser visto de qualquer canto da batalha pelos seus soldados, foram inúmeras as vezes em que ele empunhou um escudo e foi para as linhas de frente dar ânimo aos seus soldados.
Bateu os helvécios, os germanos, os belgas, os vênetos e armóricos, os bretões e finalmente sufocou a resistência dos gauleses arvernos.
Suas tropas marcharam pelos Montes Jura, pelas margens do Rio Reno (chegando a construir pontes para atravessá-lo), pelas florestas das Ardenas, pelas planícies do Flandres, pela costa do Atlântico, e, atravessando o Canal da Mancha, chegaram às Ilhas Britânicas.
Idolatrado pelos soldados, César acompanhava-os a cavalo ou a pé, procurando estar sempre presente nos pontos mais frágeis da defesa para que o seu exemplo de destemor e tranquilidade não permitisse aos soldados desandarem ou desertarem.


Alésia e a capitulação de Vercingetórix



Vercingetorix se rende a César.


O levante de Vercingétorix, o chefe dos galos arvernos, foi um dos mais impressionantes e emocionantes acontecimentos da história antiga.

O grande caudilho, decepcionado pelo conformismo da nobreza gaulesa com a ocupação romana, "faz nos campos", narrou César, "um alistamento de pobretões e homens perdidos.

Com esta tropa chama a seu partido todos os da cidade, que vai encontrando; exorta-os a tomarem armas pela liberdade comum".
A essa altura a Gália inteira ferveu. O gaulês insurgente consegue impor uma derrota parcial às legiões de César que tentaram capturá-lo em Gergóvia (perto de Clermont-Ferrand), conclamando então o povo a uma guerra total contra os romanos. Ordenou que queimassem tudo, as choças e as colheitas, nada deixando ao invasor.

César, porém, se recupera e aplica sucessivas derrotas à cavalaria gaulesa.
Vercingétorix, retirando-se com 80 mil homens e 9 mil cavalos para Alésia, no alto do Monte Auxois, pensa em repetir Gergóvia, onde resistira com êxito ao sitio do romano. Só que, desta vez, foi diferente. César tomou-se de precauções.

Os seus engenheiros traçaram rapidamente um plano de circunvalação do oppidum, a fortificação dos gauleses.

De novo os 55 mil legionários empunharam a pá. Em seis semanas, eles abriram mais de vinte quilômetros de trincheiras, montando um complexo sistema de valas, fossas, armadilhas as mais diversas, e uma paliçada completa, com torres erguidas a cada 120 metros.

César decidira-se matar os gauleses pela fome.
Vercingetórix, liberando sua cavalaria, ordenou que eles trouxessem reforços de todas as partes da Gália.

Novamente César se precaveu. Uma outra circunvalação foi escavada, desta vez voltada para fora, para poder resistir ao inevitável ataque que viria dentro de uns tempos.

De fato, uma massa de 250 mil gauleses de quase todas as tribos partira em socorro do capitão gaulês preso pelo garrote romano em Alésia.
Enquanto isso, no interior da cidade cercada, a fome fazia seus estragos.

Casos de antropofagia começaram a ocorrer. As esperanças de Vercingétorix de ser salvo se esvaíram quando ele viu, lá dos altos da sua paliçada, os romanos de César aplicarem uma derrota acachapante nos reforços que viriam tirá-lo do apremio. Sim, pois eles conseguiram por a correr aquela multidão formidável.

A batalha pela liberdade estava perdida. A Gália estava cativa. César vencera.


A atitude nobre de Vercingétorix


Vercingétorix se rende a Júlio César.
No dia seguinte ao desastre, quando não havia na Gália inteira nenhuma força organizada para poder fazer reverter o sítio de Alésia, Vercingétorix convocou o conselho militar dos seus oficiais.
Nas palavras de César, "demonstra-lhes que havia empreendido a guerra, não por interesse seu particular, mas pela liberdade comum, e pois que se tinha que ceder à fortuna, se lhes oferecia para uma das duas coisas, ou para com sua morte satisfazer aos romanos, ou para o entregarem vivo aos mesmos, como melhor entendessem".
E foi assim que procedeu. Montando no seu corcel, vestido de luzente armadura, Vercingétorix cavalgou para o acampamento do inimigo.
César recebeu-o num tablado improvisado, onde sentava num pequeno trono.
Ordenou ao vencido que entregasse o cavalo e suas armas a guarda.
Vercingétorix desfez-se de tudo e foi sentar-se aos pés de César.
Os demais gauleses sobreviventes foram entregues aos legionários como butim de guerra.
O bravo Vercingétorix foi posteriormente conduzido a Roma e jogado em uma cela, onde terminou estrangulado, talvez uns cinco anos depois de Alésia.
Depois de Alésia
Para Júlio César essa batalha foi decisiva na sua carreira.
Vitorioso na Gália, ele decidiu, três anos depois, ao atravessar o Rubicão em 49 a.C., disputar com Pompeu a hegemonia sobre a República Romana, tornada império universal.
Venceu-o. Tornou-se ditador em 46 a.C. e morreu assassinado nos idos de março de 44 a.C. numa conspiração de senadores, entre os quais Brutus que, uns anos antes, estava com ele, ajudando-o a derrotar Vercingétorix.
O poder depois da morte de César foi disputado entre seu sobrinho-neto Otávio, e um antigo auxiliar de César, Marco Antônio (também um veterano das Guerras da Gália).
Para a Gália, a derrota em Alésia significou a derrocada da cultura celta e sua substituição pela romana.
César, ao ordenar que o latim se tornasse a língua oficial das tribos gaulesas submetidas, foi, de certa forma, um dos forjadores da língua francesa atual, uma das mais belas heranças da Roma Antiga.
Deste então, surgiu na Gália uma nova civilização, a civilização galo-romana.
Bem mais tarde, no século III, na época da anarquia militar, aproveitando-se da situação caótica em que o Império Romano se encontrava, durante quatorze anos seis chefes galo-romanos proclamaram-se imperadores (de 259 a 273).
Este surto independentista pode ser considerado como a última manifestação dos gauleses de tentarem reaver sua independência, ainda que abrigados com o manto do imperador de Roma.

As campanhas de César na Gália (58 a.C - 52 a.C.)

*58 a.C. Helvécios - Líder: Dunórix - Tentativa dos helvécios de invadirem, partindo da Suíça, o Sul da Gália. Foram derrotados por César na batalha de Bibracte, aceitando em seguida a situação de vassalagem.

*57 a.C. Germanos - Líder: Ariovisto - Luta pela hegemonia da Gália setentrional. Os germanos foram derrotados perto de Besançon, entre as atuais Alsácia e Franche-Comté, e Ariovisto buscou refúgio além do Rio Reno. César ordena a travessia do rio dos germanos para punir a tribo dos sugambros.
*56 a.C. Belgas - Líder: Galba - Reação das tribos belgas à presença romana na sua fronteira. Batidos por César perto de Novon, capitulam.
*55 a.C. Tribos marítimas - César desloca-se para a costa atlântica e enfrenta os gauleses armóricos ou vênetos, numa guerra por terra e por mar. Duras represálias contra as lideranças das tribos marítimas que resistiram aos romanos.
*55 a.C.-4 a.C. Bretões - Líder: Casivelauno - Expedição punitiva de César às Ilhas Britânicas, pelos bretões terem dado abrigo aos patriotas da Armórica que lá procuraram refúgio. Depois de um acordo, César recuou para a Gália.
*53 a.C. Gauleses - Líder: Ambriórix e outros - Levante geral contra os romanos. César com sua presença consegue fazer refluir o movimento.
*52 a.C. Gauleses - Líder: Vercingétorix - Nova insurreição, desta vez popular. Trata-se de uma rebelião geral contra o invasor. César é batido em Gergóvia, mas, em seguida, consegue cercar os gauleses em Alésia. Rendição de Vercingétorix. Fim da Gália independente, tornada desde então província romana.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

GÁLIA

Província gaulesa do Império Romano

Ao nos referirmos à Gália, fazemos menção tanto ao moderno território francês (do mesmo modo que um português se pode referir ao seu país como Lusitânia), bem como à antiga região povoada pelos Gauleses (que era, no entanto, um pouco mais vasta que a moderna França), e que constituiu uma província do Império Romano.


A HISTÓRIA

Mapa da Gália em aproximadamente 58 d.C.

Na Antiguidade, Gália era o nome romano dado, para as terras dos celtas na Europa ocidental que compreende o atual território da França, algumas partes da Bélgica e da Alemanha e o Norte de Itália. Dividia-se em duas regiões:
. Gália Cisalpina (aquém dos Alpes, relativamente aos romanos), que compreendia a Itália setentrional e foi por muito tempo ocupada por tribos gaulesas;
. Gália Transalpina (além dos Alpes), vasta região (a costa sul da atual França e seu interior), situada entre os Alpes, os Pireneus, o Atlântico e o Rio Reno.
Era habitada por grande número de tribos (celtas (gaulesas, entre outras), iberos, lígures, armóricos), a Gália Transalpina foi o centro de uma civilização influenciada, desde o século VI a.C., por duas correntes de civilização helênica (Mediterrâneo e Alpes).
A Gália tinha forte organização religiosa (assembleia anual dos druidas).
Os Gauleses dedicavam-se principalmente à agricultura e dividiam as terras por tribos e nos séculos III e IV a.C., invadiram o norte da Itália.
As lutas civis enfraqueceram-na: em 222 a.C., quando o território ao sul dos Alpes foi declarado província romana, sob a denominação de Gália Cisalpina e em 125 a.C., os romanos anexaram o corredor do Ródano e o Languedoc.
O rio Rubicão fazia parte da fronteira com a própria Itália e a área ao norte do rio Pó era conhecida como Gália Transpadana sendo a do sul conhecida como Gália Cispadana.
Do outro lado dos Alpes estava a Gália Transalpina, ou simplesmente Província (de onde provém a denominação atual Provença) após sua anexação em 121 a.C. e sua capital era Narbo.


Soldados gauleses
Quando Júlio César recebeu o comando das duas províncias gálicas em 59 a.C., no período que vai de 58 a 51 a.C., apoderou-se progressivamente de toda a Gália, apesar da oposição de vários chefes, notadamente de Vercingetórix, que, em 52 a.C., após ter promovido uma sublevação geral dos gauleses, se rendeu na Alésia sitiada.

César, ao longo das guerras gálicas, expandiu a Gália Transalpina até o Atlântico, o canal da Mancha e o Rio Reno.
A cidadania romana foi estendida à Gália Transpadana por César em 49 a.C. e toda a Gália Cisalpina foi incorporada à Itália por Augusto, deixando com isto de ser província (a Gália Cispadana havia recebido a cidadania romana em 90 a.C.).

Charge retratando um gaulês.


Em 27 a.C., Augusto dividiu a Gália a norte dos Alpes em Gália Narbonense, que ficou sob o controle do Senado, e Gália Lugdunense ou Lionense (Lyon), Gália Aquitânia e Gália Belga, que ficou sob sua própria administração.
Lyon era a jurisdição da assembléia provincial das "Três Gálias".
Sob o Império, a Gália desfrutou de uma prosperidade efetiva; contudo, no século I d.C., houve algumas agitações nacionalistas (Cláudio Civilis, 69).
Os romanos protegeram a região contra as invasões germânicas, desenvolveram aí trabalhos públicos, e grandes cidades foram fundadas: Lyon, Arles, Toulouse, Bordéus, Lutécia (Paris).
Por outro lado, a Gália foi cristianizada.
No final do século III, alguns imperadores criaram um "império gálico" semi-independente, que serviu como engodo contra as invasões germânicas.
O império ocidental, o império gálico, foi devastado pelos germanos (godos, hunos e vândalos) no século III.
O território da Gália fraccionou-se quando, no século V, foi invadida pelos visigodos, pelos burgúndios e pelos francos e só voltou a unir-se sob o reinado do rei franco Clóvis, por volta do ano 500.
Bibliografia
. GEARY, Patrick. O mito da nações: a invenção do nacionalismo. São Paulo: Conrad, 2005. CDD-305.80094

domingo, 23 de maio de 2010

ANIVERSÁRIO DO BLOG



“Quanto mais sei, mais sei que nada sei”.
O pensamento é de Sócrates.
Ele defendia a idéia que quanto mais conhecimento adquiria menos sabia, pois tomava consciência da dimensão do conhecimento necessário para compreender os mistérios do mundo.
* Sócrates não deixou nada escrito, ele tinha um adepto, chamado Platão que anotou todos os ensinamentos de Sócrates e nos deixou por escrito tudo o que temos a respeito dele.
É com muita felicidade que comemoramos hoje um ano da criação deste blog,
que foi concebido com um intuito educativo,
ampliação cultural, extensão do conhecimento e divulgação da cultura Celta.
Realizar e manter um blog com um conteúdo tão específico e para uma gama de leitores tão especiais e exigentes (coisa muito boa saber disso) não é uma empreitada fácil.
Mas, ao mesmo tempo, é uma tarefa que trás muitas alegrias e compensações.
Espero que após estes doze meses de artigos, tenha conseguido parte de meu objetivo inicial e que tenhamos atingido as expectativas dos leitores, lembrando sempre que este blog é totalmente aberto a críticas e sugestões e estamos sempre em busca de melhorias e novas ferramentas que nos faça crescer cada vez mais.

Após um ano muitas foram as conquistas, mas para mim a maior delas foi um fator intangível chamado conhecimento que estamos divulgando e transmitindo através deste blog.
É por isso que fico muito feliz com o crescimento deste espaço, pois sei que estamos gerando mais conhecimento cultural e desenvolvimento pessoal.

Por fim, exprimo meus sinceros agradecimentos aos que comentaram, indicaram a amigos, mandaram sugestões e, principalmente, puxaram minha orelha quando necessário,
a cada leitor e leitora que nesses 365 dias de vida vieram visitar
e compartilhar comigo um pouco do Universo Celta.
Tudo isso me fez crescer de maneira inimaginável desde 23 de maio passado.
Quero continuar aprendendo.
O espaço é nosso!
MUITO OBRIGADO!



Quanto mais vivo,
tanto mais aprendo...
Quanto mais aprendo
tanto mais vejo...
Quanto mais vejo
mais sei,
como tantos outros:
que nada sei!
E viemos tão despreparados,
mas achamos que sabemos
e somos a resposta
de todas as dificuldades e problemas
isso quando ainda jovens,
Então, a vida vai passando...
o tempo vem chegando
e falando aos nossos ouvidos...
E quando nos permitimos ouvir sua voz,
e entendemos que:
nada somos, nada podemos.
Contra a ignorância,
a ganância e a mesquinhez humana...
Escondemo-nos em nossas incapacidades e fraquezas
tentando achar um mínimo que dê força,
alegria e resposta para viver...
E quando encontramos pessoas que pensam assim
e nos identificamos...
é um alívio!
Pois viver é uma luta,
e ao ver outros lutando
sentimo-nos melhores...
ainda que comuns,
a humanidade nos enche a alma
percebemo-nos mais sábios,
a vida nos torna humilde...
E, quanto mais vivo,
tanto mais aprendo...
Quanto mais aprendo
tanto mais vejo...
Quanto mais vejo
mais sei,
como tantos outros :
que nada sei!

sábado, 22 de maio de 2010

VETÕES E ZELAS


Vetões






Altar de Ulaca


Os Vetões foram um dos povos celtas pré-romanos da Península Ibérica (a romana Hispânia, atualmente Espanha e Portugal), que habitam na parte noroeste da Meseta, a alta planície do planalto central da Península Ibérica, região onde actualmente se situam as províncias espanholas de Ávila e Salamanca, assim como partes de Zamora, Toledo, Cáceres, e também as zonas fronteiriças do moderno território português. Autores romanos reconheceram a coesão das especificidades culturais e as chamada tribo dos Vetões. Alguns de seus legados mais notáveis incluem hoje os berrões, que são marcadores de pedra em forma de animal, de que é exemplo a famosa Porca de Murça, de uso desconhecido; e possivelmente o jogo de calva, que data do momento da sua influência.
Eles não devem ser confundidos com os Vetoneses, nome dado aos habitantes de Vetona (hoje, Bettona Úmbria).


VEJA TAMBÉM



Zelas
Zelas era um povo da Galécia que viveria na região de Trás-os-Montes e que segundo Estrabão fabricaria lanifícios com linho de boa qualidade.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

VASCONES

Vascones

O território que se estendia na época dos romanos entre o vale alto do rio Ebro e a vertente peninsular dos Pireneus ocidentais, uma região que corresponde na época contemporânea à práticamente a totalidade da Navarra e áreas do Noroeste de Aragão e Nordeste de A Rioja, era ocupada pelos vascones(ou também em latim, gens uasconum - povo dos vascones).
Os vascones, que na Idade Antiga, atingiram um elevado grau de integração no mundo romano especialmente nas terras chãs, ribeirinhas do rio Ebro e nas áreas no contorno dos seus assentamentos de Pompaelo e Oiasso, povoaram a região mais nortenha e montanhosa, conhecida como o Vasconum Saltus, durante a crise econômica e social que acompanhou à decomposição do Imperium e a pressão causada pelas grandes migrações de povos germânicos e eslavos de princípios do século V, entrando posteriormente em conflito em diversas ocasiões com os reinos de visigodos e francos formados em ambas as vertentes dos Pireneus.

Território
Época romana


Retrato de Tito Lívio, a quem se deve a primeira resenha historiográfica que se conserva da antiguidade sobre o povo dos Vascones
A descrição do território que os vascones ocupavam durante a época antiga nos chegou através dos textos dos autores clássicos, entre o século I a.C. e o século II, Tito Lívio, Estrabo, Plínio e Cláudio Ptolemeu que foram os nomeadamente estudados como fontes de referência, embora vários autores assinalassem à falta de uniformidade e mesmo contradição das suas informações ou advertido sobre a interpretação realizada, em particular para com as herdadas de Estrabo.
A resenha historiográfica mais antiga corresponde a Lívio (59 a.C. - 17) quem numa breve passagem do fragmento XCI da sua obra sobre a campanha de 76 a.C. da guerra sertoriana, relata como após remontar o rio Ebro e a civitas de Calagurris Nasica, atravessasse o território chão dos vascones ou Vasconum agrum até os lindes dos seus vizinhos imediatos, os berones.
De um estudo comparado de outras partes do mesmo fragmento, deduz-se que esse linde encontrava-se a Oeste, enquanto para o Sul os vascones eram vizinhos da cidade celtibera de Contrebia Leucada, próxima à contemporânea Daroca.
Plínio pela sua parte na sua Naturalis Historia reproduziu um texto anterior a 50 a.C. no qual emprazava os vascones no extremo ocidental dos Pireneus, vizinhos dos Várdulos, e estendidos para os montes de Oiarso e o Cantábrico em uma área que denominou Vasconum saltus.
O geógrafo grego Estrabo, à época de Augusto (63 a.C. - 14), ao referir-se aos vascones (em grego clássico, Ούασκώνων) situa a sua principal Polis na cidade de Pompaelo junto também a cidade de Callagurris.

Ambas as populações, com Kalágouris, uma das cidades dos ouáskones, …esta mesma região está cruzada pela via que parte de Tarrákon e vai até os ouáskones da beira do Oceano, a Pompélon e a Oiáson, cidade alçada sobre o mesmo Oceano. Esta quadra mede dois mil quatrocentos stadios e termina-se na fronteira entre Akyitanía e Iberia. (…) Depois, acima da Iakketanía, em direção a Norte, está a nação dos ouáskones, que tem por cidade principal a Pompélon, como quem diz 'a cidade de Pompeios'. — Estrabo


Cláudio Ptolomeu, segundo uma gravura alemã do século XVI, quem enumerou as principais populações vasconas
Estes dados encontram-se na obra de Ptolomeu, que viveu durante o século II na época imperial, Geographikè Úphégesis,em cujo capítulo 6, 66 do seu livro II detalha o nome de 15 cidades ao interior do território dos vascones, além da costeira Oiasso: Iturissa, Pompaelo, Bituris, Andelos, Nemanturissa, Curnonium, Iacca, Graccorres, Calagurris, Cascantum, Ercavica, Tarraga, Muscaria, Seguia e Alavona.
O território dos vascones na época romana republicana e alto-imperial correspondia então com as contemporâneas províncias de Navarra, o extremo Nordeste de Guipúscoa e parte de A Rioja, Saragoça e Huesca, incluindo a cidade e contorno de Calagurris.
Século II a século VI
Com posterioridade à época de Ptolomeu e após o período das invasões, o relato do autor João de Biclaro (540?-621?), quem cita os vascones na tomada pelos visigodos da cidade de Victoriacum e Gregório de Tours (538-594) sobre as incursões de Wascones na Aquitânia por volta de 587 levou a autores como Adolf Schulten (1870-1960) propor que em algum momento entre meados do século II e finais do século VI teve lugar uma ampliação progressiva do território dos vascones primeiro para Oeste, ocupando as terras dos seus antigos vizinhos Várdulos, Autrigones e Carístios, e para Norte, em Aquitânia que por isso adotou o nome de Gasconha, origem do País Basco francês.
Século VII até 810
A partir do século VII, os cronistas já diferençam a Spanoguasconia na vertente peninsular dos Pireneus, da Aquitania ou Guasconia, seguindo a descripção do Cosmógrafo de Rávena a partir da qual Schulten interpreta que os vascones ter-se-iam retirado parcialmente dos seus territórios da época romana com anterioridade ao século VII, para ocupar as terras mais a Norte, no qual seria a comunidade autônoma do País Basco e a parte setentrional de Navarra.
Schulten também achega o dado da crônica de Eginhardo Vita Karoli Magni datada em 810 onde se faz uso pela primeira vez o do término navarros para designar o povo que ocupava o território ribeirinho do Ebro.
História
Do século III a.C. a 29 a.C.: contato e integração no mundo romano
Após o desembarco em Empórion da forças da República romana em 218 a.C. durante a Segunda Guerra Púnica, o interesse romano orientou-se para a anexação e conquista do vale do Ebro, que se desenvolveria entre 202 a.C. e 170 a.C..
Por volta de 179 a.C.-178 a.C., o general Tibério Semprônio Graco fundou a proximidade do território dos vascones a cidade com o seu nome batizada de Gracurris, a moderna Alfaro, circunstância e período assinalados como antecedentes imediatos ao acréscimo das relações de colaboração entre vascones e romanos.
O testemunho mais antigo desta relação encontra-se no chamado Bronze de Ascoli de 89 a.C., durante a Guerra Social (91–88 a.C.) desenvolvida na península italiana, na qual Cneu Pompeu Estrabo, pai de Cneu Pompeu Magno fundador de Pompaelos, outorgou a cidadania ou virtute causa em reconhecimento a 9 ginetes vascones sossetanos da cidade de Segia, Ejea de los Caballeros.
De data posterior a 87 a.C., é conservado o "bronze de Contrebia", que detalha um litígio patrimonial resolvido pelo procônsul da província da Hispânia Citerior em favor da cidade vascona de Alauona, Alagón.
Entre 81 a.C. e 72 a.C. têm palco no vale alto do Ebro as chamadas Guerras Sertorianas, uma guerra civil romana que enfrentou vitoriosamente a Pompeu e Metelo, partidários de Sula, com o partido democrático de Sertório e durante as quais ambos os bandos apoiaram-se na população vascona, especialmente Cneu Pompeu Magno quem durante o inverno de 75 a.C.-74 a.C. fundaria sobre um oppidum indígena, no coração do território vascone e sobre a rota do trigo de Aquitânia, a cidade de Pompaelos, Pamplona.
Em 72 a.C. as forças de Pompeu e Metelo assediaram a cidade de Calagurris forçando sua resistência, segundo o relato de Caio Salustio até provocar práticas de canibalismo nos seus defensores.
No ano 56 a.C. o tenente de Julio César, Marco Licínio Crasso atacou os aquitanos, vizinhos dos vascones, durante a Guerra das Gálias, na qual estes últimos solicitaram o apóio militar de os outros habitantes do outro lado dos Pireneus a quem César identificou como cântabros.
Mais tarde, o território vascone ficou à margem do palco das operações militares das Bellum cantabricum que tiveram lugar entre 29 a.C. e 19 a.C. reclamando a presença de imperador Augusto que em 27 a.C. criou a província de Hispania Citerior Tarraconense com capital em Tarraco à que ficou adscrito o território vascone.
Os vascones durante o Imperium: amizade e colaboração com Roma
No reinado de Cláudio (41-54) compartimentaram-se os territórios de Hispânia em diferentes conventus aos que ficam adscritos os diferentes povos, sendo vascones e berones incluídos na circunscrição de Caesaraugusta, Saragoça, que por volta de 74-75, com Vespasiano, adotou o ius latii ou direito latino para cada magistratura municipal e em 212, reinando Caracalla, a Constitutio Antoniniana ou cidadania romana para todos os homens livres do Império.
Durante o Alto Império, produziu-se a consolidação das cidades e a formação da rede de comunicações e comércio, destacando-se a cidade portuária comercial de Oiasso que testifica restos de atividade comercial com a cidade baetica de Itálica datados de 15 a.C. a 12 a.C. encontrados em Santa María del Juncal em Irún.
Da rede de pistas que sucavam o território dos vascones destacam-se a via principal de Asturica (Astorga) a Burdigalam (Bordéus), citada com o número 34 na fonte do Itinerário de Antonino, escrito aproximadamente por volta de 280 e a via citada por Estrabo, de Oiasso a Tarraco, confluindo ambas as rotas em Pompaélo e que permitiam o transporte de cereais hispânicos da Meseta para os limes de Germania durante o baixo-império.
Numerosos especialistas, especialmente a partir das pesquisas arqueológicas empreendidas no último terço do século XX, os exemplos da rede viária e da circulação monetária ou os testemunhos de integração de unidades indígenas no exército romano, coincidem em afirmar que os vascones integraram-se progressivamente no sistema romano e mesmo adotaram formas do seu jeito de vida de maneira intensa numa parte do seu território especialmente o das cidades e o das terras chãs.
Schulten assinalou o começo deste processo desde as primeiras fases da conquista de Hispânia, a princípios do século II a.C., com as campanhas de Catão, baseando-se no conhecimento que o romano demonstra sobre a área do alto Ebro, onde somente ficavam por submeter cântabros e astures.
O processo teria-se acentuado em particular quando as guerras sertorianas até implicar, como Menéndez Pidal (1869-1968) e Julio Caro Baroja (1914-1995) propuseram a partir do estudo da toponímia basca, que a romanização, ao menos das terras chãs, se produziu de maneira profunda.
No fim do Império, segundo algumas teses, o território vascone deveu porém de apresentar grandes contrastes regionais em função do nível econômico e urbano, com grandes cidades e proprietários de villae ricamente decorados na zona meridional enquanto no florestado Vasconum saltus predominava a economia pecuária com poucas cidades e a zona média, com um sistema baseado na agricultura de pequenos e medianos proprietários onde o jeito de vida romano se encontrava em retrocesso.
Desde esta perspectiva, os indícios arqueológicos corroboram as hipóteses que descrevem um território pacifico, ao não nos ter chegado testemunhos sobre sublevações ou revoltas que inquietassem os romanos até ao declínio posterior, afastado das turbulências políticas da época e habitado por um povo amigável e colaborador de Roma.
Século III a século VI, os séculos obscuros
Os vascones durante a crise do Imperium: a correspondência de Paulino e Ausônio
Durante o século III o enfraquecimento do sistema político do Imperium implicou uma crise econômica e social, acrescentada pela pressão dos povos germânicos e eslavos, que se estenderia nos séculos posteriores concorrendo com fenômenos violentos em Hispânia como o dos bagaudas de 441 a 443 relatado por Idácio de Chaves, ou o de questionamento dos costumes, em especial os de âmbito religioso, exemplarizado pelo movimento do priscilianismo desde finais do século IV que foram contemporâneos ao processo de penetração do cristianismo nas terras vasconas.
Após a constituição do primeiro Império Galo, a península sofreu diferentes invasões por parte de povos germânicos nomeadamente na área do Mediterrâneo, mas que também afetaram ao território dos vascones como testemunham os restos encontrados de um incêndio que devastou Pompaelo para finais do século III ou o abandono de Liédena por volta de 270.[31] Outros indícios dos efeitos destas invasões foram arqueologicamente encontrados em populações situadas nas rotas de comunicação vasconas como Sames, Azparren, Mougerre e Baiona onde se localizaram tesouros que, segundo o costume, ocultavam-se dos atacantes.[32]
O efeito desta crise também se observou pelo desaparecimento de numerosas explorações agrícolas e por um retrocesso populacional urbana como assinalaram vários investigadores[33] e diversos estudos arqueológicos como o de Abauntz em Navarra[34] que permitiram descobrir como se reabilitaram pelo século V covas e cavernas para usos de moradia, um fenômeno que porém deu-se também em outros rincões do Império.
As razões que explicariam estes feitos e permitem descrever a história dos vascones durante este período encontraram-se condicionadas pelas escassas fontes historiográficas que nos chegaram desse período, razão pela qual é conhecido como o dos "anos obscuros", e assim os especialistas propuseram diferentes interpretações, se bem que as pesquisas arqueológicas empreendidas desde o último quartel do século XX achegaram elementos de interpretação frequentemente contrários às teorias consideradas durante longo tempo e que contêm imagens consideradas tópicas do povo vascone.
Uma parte da historiografia, em geral com publicações até a década de 1980[35] aceitou descrever a partir dos diversos textos antigos, em particular as descrições de Estrabo realizadas à época de Augusto e a correspondência entre o senador Paulino de Nola e seu mentor, o poeta Décimo Magno Ausonio que viveu entre 310 e 395, que mencionam o caráter bandoleiro (iugis latronum), bárbaro (gens barbara) e feroz (feriatate) dos vascones[36] ao povo vascone desde a perspectiva de um "espírito independente" , "indomável" ou "violento", nunca ou escassamente submetido ao poder romano. As revoltas bagaudas são geralmente inscritas por estes autores no território vascone ao interpretar na sua área de influência o local do centro bagaúdico de Aracelli, localidade nomeada por Idácio, mas sem localização precisa, e a explicam como a manifestação da luta de classes, entre o campesinato e os proprietários, estes apoiados pela hierarquia bispal luta paralela ao fenômeno descrito pela teoria da expansão vascona.[37] A ruralização e paganismo tardio são justificados também desde esta perspectiva pela contestação ao edito de imposição religioso de Teodósio de 390 e a resistência ao processo de cristianização, que é por isso considerado mais tardio que em outras regiões. Assim estes autores consideram que a presença de restos de fortificações militares em Velea, em Álava, e Lapurdum, no Labort, era a resposta do Império a "povos considerados perigosos pela autoridade romana",[33] mas uma vez que este poder viu-se enfraquecido e deslocado pelas invasões, o povo vascone teria ocupado o vazio de poder para se reafirmar na sua independência e desenvolver uma resistência frente de qualquer domínio estrangeiro em épocas posteriores.
Especialistas posteriores que puderam aceder às pesquisas arqueológicas e ao estudo comparativo das fontes propõem uma visão que questiona alguns dos tópicos reiterados tradicionalmente para descrever o âmbito dos vascones durante o período "obscuro". Por uma parte, a análise da visão transmitida de Estrabo, que nunca visitou pessoalmente Hispânia, é explicada pela sua intenção de ilustrar as elites governantes e econômicas de Roma donde se encontravam as principais fontes de recursos, transmitindo uma imagem distorcida para se adaptar aos prejuízos da sua audiência[30] que de maneira automática associava a idéia das populações dedicadas ao pastoreio ou habitando montanhosas afastadas com o conceito latrones, um estágio atrasado do desenvolvimento humano em comparação com o romano[38] e nesta categoria são descritos povos como os Lucanos, os Issaurios, os Ligures, os Lusitanos e os povos do Norte da Península Ibérica entre os que se encontram os vascones. A descripção de Estrabo foi para estes autores, estabelecida posteriormente como uma pauta retórica historiográfica e literária de maneira que os textos Ausônio e Paulino a reproduziram sem aproximação com a realidade do seu tempo.
Século V a século VI: invasão do Império Romano de Ocidente e primeiros conflitos com visigodos e francos
Para os primeiros anos do século V a pressão dos povos migratórios atingiu os territórios das províncias dos Pirineus ocidentais e segundo relata Isidoro de Sevilha, em 404 os patrícios Dídimio e Veradiano, membros da aristocracia vascona-romana e sobrinhos do imperador Teodósio o Grande, executados mais tarde por Constantino o Usurpador, conseguiram frear um primeira tentativa de penetração desde a Gália num episódio que poderia ter acontecido na parte ocidental dos Pireneus, pela via de comunicação de Roncesvalles.
A 31 de Dezembro de 406, reinando o imperador Flávio Augusto Honório, teve lugar a travessia massiva do rio Reno por parte de uma aliança das nações dos povos alanos, suevos e vândalos, estes diferençados em silingos e em asdingos, que cruzaram o rio congelado, à altura de Mogúncia esmagando as linhas defensivas romanas e francas aliadas do Império Romano do Ocidente e empreendendo uma travessia de 3 anos que levá-los-iam desde Renânia avançando pela força por terras das Gálias, até os Pireneus.
Enquanto isto tinha lugar, em Britânia aconteceu a sublevação do general Constantino que, com o apóio das suas tropas, proclamou-se Imperador com o nome de Constantino III e com o fim de governar conjuntamente com o imperador legítimo Honório ocupou o que se denominara como Imperium Galliarum e após sufocar certa resistência, conseguiu assentar sua dominação sobre algumas áreas de Hispânia.
Segundo Osório, Constantino encomendou ao seu general Gerontius a defesa das passagens pirenaicas às suas tropas trazidas da Britannia e que consistiam em tropas indígenas, na ocasião vasconas para a proteção das passagens ocidentais, que pela sua presença são um exemplo da sobrevivência da tradicional colaboração vascona no mundo romano tardio.
Porém, no outono de 409 os exércitos migratórios atravessaram, sem encontrar resistência, essas mesmas guarnições de Constantino o Usurpador, os passos dos Pireneus repartindo pela península em áreas de ocupação diferentes.
Durante o reinado de Vália entre 415 e 419, o monarca dos visigodos instalados em Aquitânia e o Sul de Gália, foi acordada uma aliança ou foederati com Honório, em nome da qual os visigodos encarregar-se-iam de combater ao regime do usurpador geral Máximo, proclamado por Gerontius que à sua vez, rebelara-se contra Constantino, refugiado em terras de suevos, alanos e vândalos em Hispânia em troca de aprovisionamentos e da devolução da princesa Gala Placídia, irmã de Honório.
Este pacto revelar-se-ia transcendental já que permitiu a aparição pela primeira vez dos visigodos em terras de Hispânia danda origem ao estabelecimento posterior do reino hispano-visigodo.
De acordo com o religioso José Moret (1615-1687) que recopilou na sua obra os Anales del reino de Navarra um breve relato de Idácio, em 448 teve lugar um primeiro confronto entre suevos, apoiados por visigodos, e vascones, quando o rei Teodorico apoiou Requiário na sua pretensão de conquistar toda a Hispânia, empreendendo uma expedição pelo vale meio do Ebro, Saragoça e Lérida contra os romanos, com quem os vascones continuavam mantendo a sua tradicional aliança.
Moret assinala que pela pressão dos bárbaros, os vascones estenderam-se para terras de Álava e Bureda.
Em 507 como conseqüência da sua derrota frente aos francos merovíngios que dirigidos pelo rei Clodoveu I, resultaram vencedores na batalha de Vouillé, os visigodos tiveram de abandonar a prática totalidade das suas posses no Sul de Gália, cedendo a antiga província aquitana de Novempopulânia que os cronistas francos denominavam como Wasconia pela presença populacional vascona que foram povoando as terras mais elevadas, segundo alguns autores, desde a época imperial no século II.
As crônicas de Venáncio citam as lutas mantidas por volta de 580 com o rei merovíngio Chilperico e o comes de Bordéus, Galatório, enquanto Gregório de Tours referiu as incursões que teve de enfrentar o duque Austrobaldo em 587 com posterioridade à derrota do duque Bladastes em 574 em Sola.
Reinado de visigodos e francos
Há escassas fontes diretas disponíveis para o período da história dos vascones contemporâneo à formação e consolidação do reino Visigodo em Hispânia e, com frequência, resultam contraditórias.
Vários reis hispano-godos tiveram confrontos com os vascones e há historiadores que crêem que os vascones nunca foram submetidos pelos visigodos.
Outros especialistas recordam a atitude amigável dos vascones no período romano e a ausência de conflitos relevantes durante o Baixo Império, ressaltando a dificuldade de explicar aqueles confrontos sem se apoiar no contexto da afirmação do poder autônomo em Aquitânia e as rivalidades entre francos e visigodos.
Em 632 o rei merovíngio Dagoberto I encabeçou uma expedição a Saragoça em apoio de Sisenando que se sublevara frente à autoridade de Suintila. Poucos anos depois, Dagoberto reuniu um exército de burgúndios com os que ocupou sem sucesso toda a pátria de Vascônia em 635.
Contudo, em 636 Dagoberto obteve após uma nova campanha militar, o juramento de lealdade dos vascones ao serviço de Aighina, duque saxão de Bordeus.
Após a morte de Dagoberto, o poder merovíngio foi-se enfraquecendo para abrir espaço a um período de consolidação de um poder autônomo aquitano-vascone dentro do reino franco mas do qual se desconhecem fontes de referência até que é citado a concessão a Félix, patrício de Toulouse, o controlo de todas as cidades até os Pirineus e dos vascones por volta de 672.
Para alguns autores, a política de enfretamento com poder franco por parte de Félix seria continuada pelo seu sucessor Lupo, processo que culminaria na época de Eudes que conseguiria o reconhecimento de regnum para a parte meridional da antiga Gália.
Durante os séculos VI e VII, há teorias que dizem que os vascones do Norte cruzaram os Pireneus, ocupando Aquitânia, na atual França, onde sua língua influiu no gascão, língua occitana que se falava nessa região, à que deram o nome de Gasconha.
Outros defendem que foram os aquitanos quem, forçados pelos visigodos, ocuparam o que atualmente se conhece como País Basco, deslocando os habitantes originários (hispano-romanos de origem indo-europeia) e achegando sua língua e costumes.
Invasão muçulmana: Roncesvalles e a formação do reino de Pamplona


Cena da morte de Rolando durante a batalha de Roncesvalhes, manuscrito Grandes Crónicas de Francia, ilustradas por Jean Fouquet, Tours, para 1455-1460, Bibliothèque nationale de France
Durante o inverno de 713 os exércitos muçulmanos atingiram o vale meio do Ebro que se encontrava governado pelo conde hispano-visigodo Casio quem elegeu submeter-se ao califa Omíada e converter-se ao Islã, dando origem à estirpe dos Banu Qasi em troca de manter o seu poder na região.
Pamplona, porém, foi finalmente ocupada em 718 e obrigada a pagar tributo aos governadores muçulmanos, que estabeleceram um protetorado. A derrota muçulmana na Batalha de Poitiers em 732 frente aos francos de Carlos Martel enfraqueceram a posição muçulmana, mas o vali Uqba reconduziu a situação instalando uma guarnição militar na cidade entre 734 e 741.
Mais tarde, Carlos Magno aproveitando a rebelião do governador de Saragoça para intervir na Península, atravessou com um exército franco o território vascone e destruiu as defesas de Pamplona no seu avanço para Saragoça onde à sua chegada o câmbio das alianças dos sublevados obrigou-o a retirar-se.
A 15 de Agosto de 778, na sua viagem de regresso, a retaguarda do exercito no comando do cavaleiro Roland foi aniquilada na batalha de Roncesvalles.
A constante ameaça que sobre as terras vasconas era exercida de ambas as vertentes dos Pirineus favoreceu o surgimento de duas facções líderes entre a aristocracia vascona, os Íñigo e os Velasco que se opuseram entre si apoiando-se em muçulmanos, os primeiros pelo parentesco com os Banu Qasi, e os francos carolíngios.
Quando em 799 foi assassinado pelo partido carolíngio o governador de Pamplona Mutarrif Ibn Musa, os Iñigo recorreram à família Banu Qasi para retomar o controlo da cidade.
Contudo, em 812 o emir Al Hakam I e Ludovico Pío acordaram uma trégua pela qual os carolíngios tomavam o controlo de Pamplona, delegando o governo em Velasco al Gasalqi.
Ao término da trégua, Al Hakam retomou as hostilidades com os francos e conseguiu recuperar Pamplona em 816 a cujo controlo os francos renunciaram em diante.
Íñigo Arista seria designado primeiro rei de Pamplona até 851.
Cultura e costumes dos vascones
Língua e escrita


Estátua de Iñigo Arista na Praça de Oriente de Madrid (obra de J. Oñate, 1750-53).
Como assinalam diversos autores com anterioridade à chegada dos romanos, e assim como outros povos do mais extenso âmbito de Vascônia, o povo dos vascones falava uma língua que lingüistas de referência consideram como antecessora do basco moderno, referida às vezes na bibliografia como língua proto-basca.
Porém, como recordou Henrike Knörr (1947) a origem e parentesco do euskera ainda segue sendo um mistério e objeto de numerosas pesquisas.
As variadas teorias abrangem das que fazem referência a uma origem "in-situ" como defende Luis Michelena que inspiraram a classificação dialetal moderna, ou as que o situam em lugares mais afastados do âmbito geográfico de Vascônia até à teoria do basco-iberismo que identificava o basco com o ibero falado na época antiga, se bem de acordo com Knörr, demonstrou-se superada já que há registro de ambas ser duas línguas diferentes.
Um exemplo dos problemas para o estudo histórico-lingüístico é a escassez de resenhas diretas sobre a língua dos vascones nos autores clássicos, como constata o lingüista J. Gorrochategui, salvo uma vaga descrição em Estrabo e Pompônio Mela, ou o testemunho de Julio César sobre a língua dos vizinhos aquitanos na sua obra De Bello Gallico.
De maior interesse foi o estudo de documentos epigráficos, que nos chegaram desde a introdução da escrita entre os vascones por volta do final do século II a.C., mas, infelizmente, não se puderam ainda recuperar documentos redigidos na língua vernácula, pelo qual as conclusões foram obtidas por inferência do material onomástico.
Entre eles, os mais antigos são as evidências numismáticas provenientes de diversas fábricas de moedas vasconas ou próximas, como a identificada em Osma de Valdegobia ou Uxama Barca, que inicialmente realizaram acunhações com silabário ibero ou celtibero e posteriormente, em latim, a língua que se impôs na escrita, tanto em documentos oficiais quanto em outras expressões mais correntes.
Destaca-se particularmente a estela funerária da ermida de Santa Bárbara de Lerga, considerada testemunho escrito mais antigo encontrado da língua proto-basca.
A língua ibera deixou algumas marcas no basco como, por exemplo, no vocábulo ibérico ili adotado como hiri com o significado de povoado ou cidade e que se encontra na raiz do topônimo Iruña para a cidade vascona de Pompaelo e com o que se conhecem também outras cidades da geografia contemporânea basca.
A partir destas constatações, alguns investigadores consideram que o território vascone encontrava-se inscrito, à chegada dos romanos e durante os primeiros tempos após a introdução da escrita, num contexto de maior complexidade lingüística ou trifinium cultural onde se misturam os dados lingüísticos vascones com os das línguas célticas, de influência nas áreas ocidentais como a Terra de Estella, e a ibera presente nas areias meridionais e centrais de Navarra. Progressivamente, o latim foi-se impondo na escrita, tanto oficial como privada, hipótese sustentada pela descoberta de dois epígrafes relevantes da época republicana, o chamado Bronze de Ascóli datado em 89 a.C. onde se menciona a cidade vascona de Séguia e o Bronze de Contrébia, de 87 a.C., que cita a cidade de Alavona enquanto são numerosos os exemplos que nos chegaram da época imperial e cuja distribuição e onomástica é estudada para destacar o diferente grau de influência romana na região.
Religião


Os testemunhos epigráficos e a arqueologia permitiram os especialistas perfilar as práticas de culto na terra dos vascones desde a chegada dos romanos e a adoção da escrita, propondo para sua descrição a prática do sincretismo religioso que teria perdurado até ao século I, momento a partir do qual a figura de Júpiter ganhou predominância sobre o culto indígena até à chegada do cristianismo, entre o século IV e o V.
Puderam ser localizados teônimos vascones, datados a partir do período republicano, sobre lápidas funerárias ou aras nas quais se invocam a estas divindades com formulações em latim onde transluzem os nomes bascos.
Uma evidência em favor do sincretismo foi localizada em Ujué, onde se encontraram duas aras de igual forma, uma dedicada a Lacubegi, identificado como o deus do mundo inferior e a outra a Júpiter, embora não puderam ser datadas.
Em Lerate e em Barbarin, há duas lápidas dedicadas a Stelaitse datadas no século I.
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